Por José de Alencar (1872)
- Não é por falta de diligência. Andam-lhe à pista desde muito tempo; e até, se não me engano, ouvi que tinham prometido um prêmio a quem desse cabo dele; mas até agora não se animaram, tal é o temor que inspira.
- Bem razão tenho eu, portanto, de assustar-me, quando um facinoroso desses aparece dentro da fazenda: talvez ande ele rondando a nossa casa.
- Não se lembra disso; mas, se tivesse a audácia, ele ou outro, acharia a casa bem guardada. Demais, aqui lhe deixo um homem para defendê-la. Não é verdade, Afonso?
- Sem dúvida, meu pai. Na sua ausência nada acontecerá!
- Não é por mim que receio, Luís; antes fosse; não estaria tão inquieta, disse a senhora com um leve reproche.
- Nesse caso eu não partiria! respondeu o marido galanteando.
- Então fique!
- Sim, papai, fique! Dê esse gosto a mamãe, disse Linda.
- Também a senhora não quer que eu vá? Olhe, não se arrependa! replicou o pai com um gesto de zombeteira ameaça. Levo uma certa encomenda de vestidos e enfeites, que só eu sei escolher.
A moça ficou enleada entre a esperança do presente e o desejo da mãe.
- Papai compraria outra vez.
- E a festa? Perguntou o pai sorrindo.
A pêndula soou oito horas.
IX
As amostras
Advertido pela pêndula, Luís Galvão consultou seu relógio de algibeira e ergueu-se:
- São horas!
Até aquele momento nutrira D. Ermelinda uma vaga esperança, que ela mesma não podia explicar. Lembrava-se que um pequeno acidente qualquer podia estorvar ou pelo menos adiar a viagem. Vendo chegar a despedida, empalideceu:
- Se você aflige-se dessa maneira, Ermelinda, não vou. Faz-me grande desarranjo, como sabe; mas não tenho ânimo de deixá-la tão sobressaltada.
- Confesso que esta emoção faz-me mal; já não me sinto boa.
- Então fico: está decidido.
Uma sombra de tristeza perpassou rapidamente pelo semblante de Linda; todavia não escapou ao olhar da mãe, que adivinhou a causa dessa mágoa da moça.
- Mas, Luís, esta viagem é necessária, e, no fim de contas, meus sustos não têm razão de ser. Você precisa concluir esse negócio; e Linda ficará queixosa se não tiver os presentes prometidos.
- Eu, mamãe? exclamou a menina com terna exprobração. O que eu desejo é vêla sempre contente.
- E não é um contentamento fazer-te feliz? Já fui moça como tu; nessa idade a ventura é uma flor, uma fita. Só depois se compreende o que ela vale e o que ela custa, minha filha. Não te envergonhes dessa faceirice. Quem há de tê-la senão tu? Deus fez as estrelas para brilharem.
- Então o que decidem? Perguntou Luís Galvão.
- Vá; eu lhe peço.
- Por minha causa, não! contestou Linda.
- Pela minha, disse D. Ermelinda.
Calçadas as luvas e feitos os últimos aprestos, despediu-se o viajante da família e montou a cavalo.
No momento de abraçar o marido, D. Ermelinda com disfarce apalpou-lhe o peito, e ficou mais tranqüila percebendo o revólver no bolso do casaco. Não obstante, custou-lhe muito essa despedida; seus vagos terrores se alvoroçaram de novo, e foi preciso grande esforço para dominar-se.
Entretanto Luís Galvão, esporeando a rosilha, depois que disse o último adeus com a palavra e o gesto, passou a cancela do terreiro. Acompanhava-o de perto, a meiocorpo da cavalgadura, o camarada Mandu; adiante ia o pajem para abrir as tronqueiras; e entre ele e o viajante trotava o baio, solto, mas de todo arreado e pronto para o revezo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.