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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Agora a Guida encaminhara o cavalo para o arbusto a fim de colher um ramo; mas avistando o importuno passeador, desistiu, disparando a galope. 

- Esta moça, disse Ricardo rindo-se interiormente, há de me considerar como uma espécie de borboleta preta! Depois do almoço, estando o sol muito quente, Fábio deitou-se a ler no quarto, e Ricardo, tomando a sua caixa de tintas, foi trabalhar junto à janela. Continuou a colorir o quadro que representava a Guida, e cujos traços ele havia corrigido pela manhã. As feições da moça, se não eram de uma semelhança perfeita, recordavam sem dúvida a gentileza de sua fisionomia. 

Seriam onze horas do dia; fazia uma calma abrasadora. D. Joaquina e as pretas estavam recolhidas lá para o interior; Fábio, contra o seu costume, lia tão placidamente que causava suspeitas. Tido na casa estava em silêncio. Fora, o 

“Galgo” tosava uns tufos de capim melado; e a Nanica ciscava no terreiro em companhia de um galo e de um pinto. A janela junto da qual trabalhava Ricardo, era de tacaniça, onde havia sombra; daí não se enxergava a frente da casa, nem a rua de cafezeiros e abacates que ia dar à cancela da estrada; por isso não pôde ele ver um grupo de cavaleiros que, parados no caminho, espiavam para descobrir alguma pessoa da casa. 

Afinal avistaram uma das pretas velhas que saíra a apanhar gravetos para o fogo. 

- Vem cá, mãe; você nos dá um pouco d’água? disse um dos cavaleiros. 

- Sim, meu senhor; pode entrar, respondeu a preta velha abrindo a cancela. 

Os cavaleiros invadiram a propriedade de D. Joaquina;  a maior parte porém ficou à sombra das árvores; apenas alguns mais impacientes se aproximaram da porta, a fim de esperar a água. Essa impaciência não era produzida tanto pela sede que eles tinham, como pelo desejo de cada um ser o primeiro a servir uma linda amazona, que esperava à sombra de uma laranjeira. 

- Duvido que a tal velha tenha água bastante para matar a sede de tanta gente! observou um cavaleiro.

- Felizmente o rio passa perto. 

- O melhor é irmos logo a ele; que dizes, Guimarães? 

- Que espécie de copo nos trará a preta? Aposto que alguma xícara! 

- Água em xícara! 

- Senhores, esta casa está bem boa para uma fogueira de S. João. Não acham?

- É mais velha que a Tijuca. 

- Quem morará aqui? 

- Alguma velha caraça do século passado.

- Segundo tomo da sujeita dos cambucás! 

Estes ditos mais ou menos chistosos, entremeados de risos, eram proferidos com intenção de divertir a gentil amazona. Mas esta, inteiramente distraída, estivera olhando com atenção o “Galgo” que se aproximara da cerca do pasto, apenas percebera a chegada dos outros animais; depois examinara a casa com uma expressão de surpresa desagradável. O cavalo, sentindo as rédeas frouxas, andara alguns passos, o que o aproximara do canto da casa. Os olhos da moça caíram sobre a janela, junto à qual Ricardo estivera trabalhando. O álbum aberto ficara encostado à ombreira onde o desenhista o pusera para secar as tintas, antes de dar-lhe os últimos toques. Não aparecia o busto do moço; ao rumor das vozes na porta tinha-se ele voltado, e procurava distinguir a fala das pessoas. 

O primeiro movimento da menina foi recuar o cavalo; porém seu olhar tinha descoberto na página aberta do álbum a paisagem recentemente pintada. Ela teve um pressentimento; e correu a vista rápida por seu talhe, verificando a semelhança que do primeiro relance se lhe afigurava. 

Era o mesmo roupão verde-escuro, o gracioso chapéu de castor cor de pérola, e as luvas de camurça amarela. A estampa de “Edgard” completava a sua figura de amazona. 

Nesse momento Ricardo, erguendo-se, descobriu o vulto da moça; ela corou reconhecendo a sua indiscrição; mas não obstante, um olhar afouto interrogou o semblante do advogado, fitando-se alternadamente nele ou na paisagem Ricardo cortejara polidamente a moça, mas com esse movimento chegou-se quanto pôde à janela, e disfarçadamente ocultou o álbum. 

- Estamos esperando a água que foram buscar! disse a voz maviosa de Guida, como uma desculpa, ou um pretexto para sair da situação em que o acaso a colocara. 

- Ah! com muito prazer. 

(continua...)

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