Por Machado de Assis (1878)
Nunca os charutos de Jorge padeceram semelhante acusação da parte do Sr. Antunes, que fumava regularmente os do filho como havia fumado os do pai. Estela ficou humilhada com a resposta e a ação; retraiu um suspiro e talvez devorou uma lágrima. Jorge, que estava de pé, junto a uma mesa, viu sair o pai de Estela, e ficou a olhar para o chão. A moça cravou os olhos no trabalho, que estava fazendo, e um mortal silêncio reinou entre os dois.
Jorge ergueu enfim os olhos e pousou-os na moça, cuja beleza lhe pareceu naquela noite ainda mais límpida e espiritual, justamente porque ele começava a vê-la através do ninho da saudade. Ela atendia ao trabalho com uma quietação laboriosa. Suas mãos, que podiam emparelhar com as mais puras, moviam as agulhas sem aparente comoção nem tremor. Ao mancebo já não humilhava esse aspecto indiferente e digno; ou se o humilhava, não era o amor-próprio, era o coração que se sentia opresso. Podia medir, em si mesmo, a diferença das situações, o caminho vencido, desde suas primeiras idéias a respeito de Estela. Mas os minutos corriam e o silêncio acanhava-o cada vez mais; enfim, resolveu rompê-lo, e rompê-lo de modo que tirasse daquele minuto ou a salvação ou o naufrágio da vida que ia empreender. Deu dous passos para Estela.
— Talvez não nos vejamos mais, disse ele.
— Por quê? disse Estela sem levantar os olhos.
— Posso ficar enterrado no Paraguai.
— Sua mãe não gostaria de ouvir isso...
Seguiram-se ainda dous minutos, que pareceram duas mortais horas. Jorge perdeu momentaneamente o uso da língua e da razão; mas venceu-se, colheu as forças, e pôs toda a sua alma nestas palavras, ditas em voz baixa e triste: — Embarco amanhã para o Sul. Não é o patriotismo que me leva, é o amor que lhe tenho, amor grande e sincero, que ninguém poderá arrancar-me do coração. Se morrer, a senhora será o meu último pensamento; se viver, não quero outra glória que não seja a de me sentir amado. Uma e outra cousa dependem só da senhora. Diga-me; devo morrer ou viver?
Estela tinha erguido a cabeça; quando ele acabou achava-se de pé. Fitou-o alguns instantes com uma expressão muda e fria. A vaidade da mulher podia contentar-se daquela solene reparação, e perdoar; mas o orgulho de Estela triunfou, e não deu lugar a nenhum outro sentimento de justiça ou de humanidade. Um jeito irônico torceu-lhe o lábio, donde saiu esta palavra má e desdenhosa:
— O senhor é um tonto.
Quando o pai voltou à sala, instantes depois, Jorge estava com uma das mãos no encosto de uma cadeira, pálido como um defunto. Estela fora até à porta da alcova da sala, resolvida a fechar-se por dentro.
O Sr. Antunes não tinha observação; mas, ao ver o rosto dos dous, não era muito difícil adivinhar que alguma cousa se passara entre eles. Adivinhou-o; contudo, não atinara bem o que seria, se uma cena de dolorosa despedida, se outra cousa menos propícia a seus cálculos. Foi ao jovem capitão e pediu-lhe que se sentasse; mas Jorge declarou que ia sair e despediu-se. Sem encarar Estela, estendeu-lhe a mão, que ela apertou com o ar mais tranqüilo do mundo. O pai espreitava uma lágrima furtiva, um gesto disfarçado, qualquer cousa que falasse em favor de suas esperanças. Nada; Estela não baixou o rosto nem escondeu os olhos. Jorge, sim; não obstante o esforço que fazia, tremia-lhe a mão ao apertar a do escrevente.
O Sr. Antunes acompanhou-o até a porta. Ali, antes de a abrir, quis abraçar o moço oficial.
— Dê-me essa triste honra, disse ele; creia que estes braços são de amigo.
Jorge deixou-se ir, sem entusiasmo; mas quando sentiu o corpo do pai de Estela, pareceu-lhe que abraçava uma parte da moça, e apertou-o fortemente ao peito. Esta manifestação lisonjeou extremamente o outro; chegou a comovê-lo.
— Conte comigo, murmurou ele; fico para ajudá-lo.
Jorge ouviu-o, apertou-lhe maquinalmente as mãos, recebeu um abraço último e atirou-se à rua. Intolerável é a dor que não deixa sequer o direito de argüir a fortuna. O mais duro dos sacrifícios é o que não tem as consolações da consciência. Essa dor padecia-a Jorge; esse sacrifício ia consumá-lo.
Não foi dali para casa; não ousaria encarar sua mãe. Durante a primeira hora que se seguiu à saída da casa de Estela, não pôde reger os pensamentos; eles cruzavam-lhe o cérebro sem ordem nem dedução. O coração batia-lhe rijo na arca do peito; de quando em quando o corpo era tomado de calafrios. Ia despeitado, humilhado, com um dente de remorso no coração. Quisera de um só gesto eliminar a cena daquela noite, quando menos apagá-la da lembrança.
As palavras de Estela retiniam-lhe ao ouvido como um silvo de vento colérico; ele trazia no espírito a figura desdenhosa da moça, o gesto sem ternura, os olhos sem misericórdia.
Ao mesmo tempo, lembrava-lhe a cena da Tijuca, e alguma cousa lhe dizia que essa noite era a desforra daquela manhã. Ora sentia-se odioso, ora ridículo. Quem se sente odioso pode ter no orgulho um refúgio; quem se sente ridículo acha no orgulho seu próprio flagelo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.