Por José de Alencar (1860)
JOANA - Nhonhô hoje não está bom, não! Tão cheio de partes!...
JORGE - Será o doutor?
CENA VI
Os mesmos e PEIXOTO
PEIXOTO - Com licença!
JORGE - Ah!... Faz obséquio de sentar-se?
PEIXOTO - Tardei um pouco. Tive que fazer.
JOANA - É o homem dos trastes, nhonhô?
JORGE - E o doutor nada!
JOANA - Não achou.
PEIXOTO - Vamos a isso! Falou-me na sua mobília. É esta?
JORGE - Sim, senhor. Tenho também alguns trastes na varanda.
PEIXOTO - Jacarandá... Mais de meio uso.
JOANA - Quase nova, meu senhor...
PEIXOTO - Tem alguns dois anos de serviço.
JOANA - Jesus!... Nem dois meses!
PEIXOTO - Então foi comprada em leilão. Não há que fiar agora. Imaginem trastes velhos por novos... Lixa e verniz... Não custa.
JORGE - Mas quanto dá o senhor?
PEIXOTO - Por isto que aqui está... Último preço oitenta mil-réis. Não vale mais.
JORGE - Oitenta só?
PEIXOTO - Só. E não é pouco.
JOANA - Ora, meu senhor! Mais do que isto custou o sofá.
PEIXOTO - Pode ser. Não dou mais.
JORGE - E pela minha cama?... É de mogno maciço.
PEIXOTO - Vejamos. (Entra na alcova.)
JOANA - Mas nhonhô há de ficar sem a sua cama? Isso não tem jeito nenhum.
JORGE - Comprarei outra depois.
JOANA - Melhor é fazer o que lhe disse, nhonhô.
JORGE - Deixa ver... Talvez não seja preciso.
PEIXOTO - A cama e a mobília da sala... Fica tudo por cento e vinte mil-réis. Tem mais alguma coisa?
JOANA - Tem, sim, meu senhor!... Tem esta escrava! Quanto acha Vm. que ela vale?
PEIXOTO - Ah! Isto é outro caso!... (A JORGE) Quer renovar a hipoteca sobre ela?
JOANA - Quer... Ele quer... Pois já não disse?...
PEIXOTO - Não ouvi! Então fica sem efeito o negócio dos trastes?
JOANA - Fica, meu senhor!... Não é, nhonhô?
JORGE - Não sei.
PEIXOTO - Em que ficamos?
JOANA - Devem ser quatro horas!
JORGE - Quatro horas!?... Que decide, senhor?
PEIXOTO - Sobre a mulata?
JORGE - Sim!
PEIXOTO - Dou-lhe sobre ela trezentos mil-réis.
JORGE - Como, senhor?!... Não lhe estava hipotecada por seiscentos mil-réis que acabei de pagar hoje?
PEIXOTO - Foi em outro tempo! Hoje está velha.
JOANA - Eu velha, meu senhor!... Mal tenho trinta e sete anos... Depois não sou qualquer mulatinha como essas preguiçosas que não entendem de outra coisa senão de estar na janela!... Eu sei pentear e vestir uma moça que faz gosto. Melhor do que muita mucama de fama.
PEIXOTO - Não tenho filhas.
JOANA - Mas eu também sei coser, lavar, engomar. Que pensa meu senhor?... Onde me vê, não é por me gabar... Dou conta do arranjo de uma casa... Varro, arrumo tudo, cozinho, ponho a mesa; e ainda me fica tempo para fazer as minhas costuras, remendar os panos de prato, arcar as panelas... Pergunte a nhonhô!
JORGE - Joana, eu te peço!
JOANA - Olhe, meu senhor! Dê quinhentos mil-réis, que não se há de arrepender!... Dê sem susto, porque o mais tarde, o mais tarde, amanhã meu nhonhô vai lhe pagar.
PEIXOTO - Não posso. Tu não estás segura...
JOANA - Eu não preciso, meu senhor!... Prometo a Vm. que não morro!... Não é capaz!... Tenho vida para cem anos. Vm. não conhece esta mulata, não. Seguro... Isto é para a gente de hoje!...
JORGE - Escuta, Joana.
JOANA - Nhonhô espere... Então Vm. não dá os quinhentos mil-réis?
PEIXOTO - Veremos: veremos! Conforme as condições que teu senhor aceitar.
JOANA - Logo vi que Vm. havia de chegar... Porque olhe!... Também por menos, estava bem livre!... - O que é, nhonhô?
JORGE (a meia voz) - Deixa-nos a sós Quero tratar com este homem.
JOANA - E que tem que eu esteja aqui, nhonhô?
JORGE - Em tua presença nunca poderei.
JOANA - Pois eu vou. Não se arrependa, nhonhô. D. Iaiá Elisa está esperando...
Coitadinha!...
CENA VII
JORGE e PEIXOTO
PEIXOTO - Está disposto a efetuar o negócio?
JORGE - Por quinhentos mil-réis dados imediatamente.
PEIXOTO - Já vejo que nada fazemos.
JORGE - O senhor supõe que estou, como certas pessoas com quem trata, procurando rodeios para tirar-lhe a maior soma possível. Engana-se.
PEIXOTO - Não suponho tal.
JORGE - Tenho urgente necessidade de quinhentos mil-réis, hoje, dentro de meia hora. Desde que não é possível obter esta quantia, o negócio não me convém. E não sei, Sr. Peixoto, se deva agradecer-lhe.
PEIXOTO - Então precisa de quinhentos mil-réis?
JORGE - Justos.
PEIXOTO - Pois não seja esta a dificuldade. Dou-lhe esse dinheiro sobre a escrava.
JORGE - Já?
(continua...)
ALENCAR, José de. Mãe. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7546 . Acesso em: 21 jan. 2026.