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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

E sua cabeça lhe mostrava a sociedade despótica e tirânica empurrando-o para longe de Celina, erguendo entre ela e ele um muro de bronze, em cujo cimo estava escrito – impossível – impossível; porque o século pertence ao ouro, e o homem pobre deve abafar suas afeições...

Mas o coração que ama, não crê nessa palavra – impossível –; o coração não sabe que no mundo há ouro; não raciocina para depois amar: o coração ama, porque ama.

E todavia se Cândido fosse cair aos pés da “Bela Órfã”, se lhe pedisse seu amor e sua mão, a sociedade teria de perguntar-lhe:

– Quem és tu?...

– Um pobre rico de honra.

E a sociedade havia de rir-se, e de responder-lhe: – não basta.

E viria depois dele um outro de quem se pudesse dizer – Um rico pobre de mérito.

E a esse responderia a sociedade: – é de sobra.

Atormentado por essas reflexões, que até certo ponto exprimiam nuamente a verdade, o caráter da época atual, Cândido caminhava a passos largos sem ver, sem ouvir, sem atentar coisa alguma.

Irias acompanhava a custo, e como que espantada, ao ardente moço. Tendo-lhe, como foi dito, caído a mantilha ao pé do túmulo de Paulo Ângelo, quando de novo nela se envolveu, colocou-a mal, e uma porção de seus longos cabelos brancos ficou flutuando sobre ela. E Cândido, levando-a estouvadamente, e caminhando sem reflexão, ora com Irias se esbarrava contra os que vinham, ora deixava que a pobre velha se salpicasse de lama.

Indiferente a tudo isso, surdo à voz de Irias, todo entregue a seu pensamento único, foi somente ao aproximar-se de sua pobre casa que Cândido se sentiu despertar por um grito de escárnio.

– Bruxa!... bruxa!... bradavam de todos os lados.

Entretanto também Celina se retirara da igreja de S. Francisco de Paula em companhia de seu avô e sua tia. A carruagem, em que vinha o velho e as duas senhoras, parou no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, e quando os três acabavam de apear-se, foram atraídos pelos gritos, que de todas as partes soavam.

Cândido e Irias viam-se cercados por uma chusma de garotos, que tomavam a velha para alvo de suas zombarias.

Como os cães que, em nossa terra, investem de preferência contra os negros, porque sentem o desprezo que se vota a essa classe desgraçada, a escória da sociedade, imitando os grandes, escarnecia da pobreza daquela mulher.

Jacó e Helena riam-se daquela cena de escândalo, como se ela fora uma cena de prazer público; e ambos eles excitavam, em voz baixa, os garotos que passavam perto de suas janelas, a continuar em seus insultos e redobrar os gritos que soltavam.

– Bruxa!... fora a bruxa!... bradavam uns.

– Lá vai a velha bruxa!... clamavam outros.

Alguns já tinham ousado chegar-se a suas vítimas, e a mantilha da velha estava

feita pedaços.

Irias agarrava com suas duas mãos emagrecidas e nervosas o braço do mancebo que, tremendo de raiva e de vergonha, esquecia-se do que era, e queria lançar-se contra a canalha; e ao mesmo tempo que a velha, que o sustinha à força, apenas demonstrava o seu furor em um sorrir de desprezo, que deixava ver duas ordens de dentes iguais, alvos e brilhantes, e nas vistas de fogo de seus olhos verdes que simulavam do gato observado em noite escura.

– Minha tia! exclamou Celina, aquela é a velha Irias, e o moço, que a acompanha, o mesmo que orou junto do túmulo de meus pais.

– Sim... creio que sim, respondeu-lhe Mariana.

– Pois então nós não podemos consentir que sejam assim maltratados.

– Mas que faremos?

– Eu vou acompanhá-los... à casa da velha Irias... é tão perto...

– Louca!... exclamou o velho.

Os gritos redobravam. As duas vítimas não podiam dar um passo. Irias empregava todas as suas forças para suster o mancebo.

– Eu corro a socorrê-los, meu avô, disse outra vez a moça com interesse.

– Não; não! Manda antes o criado.

– Eles não respeitarão a um boleeiro.

– E crês que terão respeito a uma menina?...

– Respeito não; mas talvez que tenham piedade.

Nesse momento uma pedra veio cair aos pés de Irias. Celina escapou-se do braço de sua tia, correu e colocou-se ao lado da velha.

O escárnio cessou como por encanto.

Pôde-se mesmo notar que aquela gente pervertida, sem moral nem educação, que ainda há pouco gritara furiosa, parecia como que arrependida de o haver feito. Se pudesse, lançaria agora flores sobre a velha que acabava de apedrejar.

Jacó e Helena foram os únicos que murmuraram entre si daquele proceder da moça.

Celina acompanhou Irias e Cândido até a porta do “Purgatório-trigueiro”.

– Minha mãe, disse a moça beijando a mão de Irias, eu lhe agradeço as orações que rezou junto do túmulo de meus pais.

E depois voltando-se para Cândido, continuou:

– Obrigada, senhor.

Cândido, pálido como um finado, estava em pé porque se agarrara à velha rótula.

Celina voltou-se para se retirar; e então Irias pôs suas duas mãos sobre a linda cabeça da moça, e disse:

– Proteja Deus a filha dos pais dos pobres.

(continua...)

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