Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Então tu... – objetou a tia entre irônica e severa – viste-o, olhaste para ele, e mais nada... ficaste apaixonada!... Com efeito!... Eu ainda não me infirmei bem na cara desse sarrafaçal; mas, pela idéia que tenho, ele tem uma figura muito reles! Tu não sabias – continuou D. Beatriz, espiritando-se com uma pitada de vinagrinho – não sabias que ele é irmão da Joana, e cunhado do Zé tendeiro? E que o pai dele era sacristão da Senhora da Agonia, e que a mãe trabalhava com os bilros? Sabias isto?
― Sabia...
― Sabias?! Quem to disse?
― Foi ele.
― Foi ele mesmo?! O tal Francisco?
― Sim, minha senhora.
― Então tu falavas-lhe?
― Não, minha senhora... Escrevia-me ele.
― E contou-te de quem era filho!... É extraordinária a sinceridade!... E para que fim te contava ele essas coisas que deviam fazer-te cair na razão da tua indigna escolha?
― Contava-me estas coisas para que ninguém mas contasse antes dele.
― Então o rapazola tinha orgulho em ser filho do sacristão?... Bem sei... são as idéias que cá trouxe a liberdade... Deus perdoe a teu pai, que também ajudou a fazer gente os netos dos carpinteiros e dos cozinheiros dos iates... Oxalá que ele não pague... Vamos ao caso... E tu, apesar do Francisco da Joana te dizer quem era, não mudaste de idéia?
― Não minha senhora...
― Continuavas a querer-lhe...
― Sim, minha tia.
― E com que fim? Querias casar com ele?
― Se me deixassem, casaria.
― Ora não sejas infame! – bradou a tia, cerrando os punhos, e resfolegando tão irada que o tabaco lhe espirrava em granizo das ventas arquejantes – não sejas infame, Ângela! – repetiu ela, resistindo ao flato que já lhe emperrava a língua. – Não és minha sobrinha, não és filha de Simão de Noronha... De Maria d'Antas creio eu bem que sejas filha...
A última espécie do insulto foi vociferada com rancoroso sarcasmo: Ângela não o percebeu.
― Com que então, se te deixassem, casarias com o cunhado do Zé tendeiro!... – repetiu a velha acentuando com crispações de riso aspérrimo aquele Zé, elidindo a primeira silaba para engrandecer a ignomínia do nome.
Ângela ouvia em silencio e lagrimosa as invectivas da velha, cortadas de frouxos nervoso. De súbito, D. Beatriz, circunvagando pelo sobrado o olho direito armado da luneta, exclamou:
― Que é da carta que eu tinha aqui? Que é da carta?
― Aqui está – disse mansamente Ângela, apresentando-lha.
― Querias lê-la, não é assim?! – gritou a velha, tirando-lha da mão com arremesso. – Vai perguntar à criada que ma trouxe se ela quereria casar com o Francisco da Joana...
E, abrindo-a em tremuras de raiva, pôs a luneta e bradou:
― Tu!... Olha isto, filha de Simão de Noronha! Tu... O neto do cozinheiro dá tu à filha do décimo oitavo senhor do paço de Gondar!... Não te envergonhas, Ângela!... Consentiste em semelhante insulto a tua mãe, que era das mais distintas famílias de Portugal?
Como a filha de Maria d’Antas não respondesse, D. Beatriz gesticulou de ombros e cabeça em ar de assombrada, repôs a luneta no olho fundo e mirrado, e leu mentalmente, fazendo esgares com os queixos, ao passo que um novo tu lhe descompunha o aparelho nervoso. Muito é, porém, de notar-se que da leitura da segunda página em diante o rosto da velha denotava espanto sem ira, sem carrancas, sem intermitências de suspiros e ais. Um período especialmente a impressionou de feição que voltou terceira vez a lê-lo, compassando o entendimento de cada frase com um gesto afirmativo de cabeça. A passagem dizia assim:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.