Por Lima Barreto (1909)
O coronel tinha-se ido; e eu deixava-me a ver e a meditar na solução do meu problema de vida. O meu olhar ia de baixo para o alto, onde flocos de nuvens alvadias, esgarçadas, flutuavam e se tingiam de ouro, de púrpura, de laranja, em rápidas mutações de teatro. Vinha a noite aos poucos e eu continuava a pensar, acariciando cismas, excitando recordações, rememorando a minha infância, as fisionomias que ela viu e os fatos que presenciou. Meu pai, o seu corpo anguloso, seco, a sua dor contida que se escapava no seu olhar e na sua fisionomia transtornada. Via-o às tardes, nos dias de bom humor, mudá-la de chofre, fazer-se risonho, vir para mim, sentar-se à mesa, e, à luz do lampião de querosene, explicar-me pitorescamente as lições do dia seguinte. Ou então, da cadeira de balanço, contar-me as maravilhosas coisas do movimento da terra, dos antípodas, da gravitação universal, e, enleado à minha pergunta se Deus podia parar a terra, responder com hesitação — Pode, sim.
Às oito horas, depois dessas efusões, dessas raras manifestações da sua paternidade, minha mãe punha, na mesa da sala de jantar, o chá que ele tomava em geral sozinho no quarto.
— Pode tirar o chá, “seu” padre?
— Pode, minha filha.
Era assim que se falavam. Encontrei sempre esse tratamento distante entre eles. Pareceu-me que o seu encontro fora rápido, o bastante para me dar nascimento. Uma crise violenta do sexo fizera esquecer os votos do seu sacerdócio, vencera a sua vontade, mas, passada ela, viera, com o arrependimento da quebra do seu voto, a dor inqualificável de não poder confessar a sua paternidade.
Ele amou-me sempre, talvez me quisesse mais por causa das condições que envolviam o meu nascimento. Em público, olhava-me de soslaio, media as carícias, esforçava-se por fazê-las banais; em casa, porém, quando não havia testemunhas, beijava-me e afagava-me com transporte. Ele temia o murmúrio, temia dar-lhe força com atos ou palavras públicas; entretanto toda a redondeza quase seria capaz de atestar em papel selado a minha filiação...
Vinha o chá, nós ficávamos a tomá-lo e ao menor ruído minha mãe vinha do interior da casa para saber se meu pai queria alguma coisa. Acabado o chá, eu ainda ouvia “história” da tia Benedita, uma preta velha, antiga escrava do meu reverendo pai. Eram cândidas histórias da Europa, coisas delicadas de paixões de príncipes e pastoras formosas que a sua imaginação selvagem transformava ou enxertava com combates de gênios maus, com malefícios de feiticeiras, toda uma ronda de forças poderosas e inimigas da vida feliz dos homens. Tal fora a minha infância, que, nas dobras da saudade, aquela tarde carregada de cogitações vitais à minha vida, me vinha trazendo à memória com uma nitidez assombrosa. Cansado de olhar a rua e de pensar, desci ao pavimento térreo, à sala de jantar onde o Coronel Figueira e o Senhor Laje da Silva conversavam. Mal entrara, prazenteiramente, este exclamou: — Oh doutor!
Era assim sempre que ele falava ao encontrar-me. Tinha sempre atenções, pequenas delicadezas; tratava-me como se eu fosse um “doutor” de fato, com influência, inquirindo sobre os meus amigos e as minhas relações. Se me encontrava na rua, obsequiava-me o talento de que ele não tinha a mínima noticia. Quase sempre pela conversa, indagava das minhas amizades, das minhas relações; se eu era colega de F., se me dava com beltrano, se estudava isto ou aquilo. Eu respondia-lhe simplesmente, ingenuamente que não, que não conhecia ninguém a não ser o doutor Castro, o deputado. Ele não deixava transpirar nada, nem uma contração, nem uma ruga que fizesse descobrir como recebia essas minhas respostas; mas também em coisa alguma modificava o tratamento; continuava a ser o mesmo, o mesmo Laje da Silva, mesuroso, afável, informado e loquaz a seu jeito. Não sei o que esperava de mim, o certo é que, durante os meus primeiros dias no Rio, recebi dele as mais respeitosas homenagens, as maiores considerações. Embora ensoberbecesse a minha vaidade de colegial, continuava a sentir no padeiro muito de desonesto, de falcatrueiro, para me ligar inteiramente a ele. Evitava-o, fugia-lhe, mas não tinha coragem para lhe dar a entender francamente que não lhe queria amizade. Aceitava-lhe as homenagens, os refrescos, conversava, mas sempre com um pequeno medo de que ele me metesse nalguma embrulhada com a polícia.
Foi com grande surpresa que o avistei: supunha-o fora e não pude reprimir o espanto que isso me causara. Ele não se alterou; respondeu-me cheio de bonacheirice:
— É verdade, doutor... sim, não há nada que fazer... tudo por aí está explorado... Uma miséria! Já se colocou?
A pergunta desagradava-me e ele fazia-ma sempre. Ensaiei diversas respostas e por fim respondi-lhe capciosamente:
— Ainda não; mas dentro em breve, creio...
O Coronel Figueira, que falava quando entrei, desejoso de continuar a palestra interrompida, logo que percebeu acabados os cumprimentos, dirigiu-se a mim de supetão:
— Doutor, pode haver ladroeira na loteria?
Pensei um instante, mas sem encontrar base para uma resposta segura, respondi dubitativamente:
— Pode ser.
E logo o velho coronel, com a sua voz nasal e cheia, em que havia no momento uma
grande satisfação:
— Eu não dizia?... É, sim... Como não pode?
— Mas por quê, coronel?
Então explicou-me que discutia isso com Laje e como ele me soubesse um rapaz preparado, apelara para mim.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.