Por Lima Barreto (1905)
Esfarrapado, doente, esfaimado, Gaspar Hurtado continuou a pregar e fundou quatro aldeias. Era a esse homem que o padre Jouquières tão abruptamente desafiara.
— Porventura estareis esquecido da obedientia coeca, que juraste? indagou o reitor.
Absolutamente, padre Hurtado, não estou. Vossa Paternidade, me parece, é que já está esquecido em demasia.
— Quereis falar da autorização especial que tendes?
— Sim. Do Geral que tudo pode e manda, e quer ser obedecido.
— E quem vos disse que ele está sendo desmandado, Marquês de Fressenec? Quem vos disse?
— Relembrai-lhe os termos, padre Reitor.
— Lerei. Será melhor.
“... concedo-lhe a graça de experimentar as grosserias do mundo, enquanto for para bem dos interesses da Ordem...” Não é isso?
O velho missionário, logo ao tirar a cópia da carta de sob as vestes, tinha dado com o tópico; e a presteza com que o achou dava a entender que muito meditara sobre ela e a interpretara segundo as suas conveniências.
O antigo marquês percebera argutamente a finura do superior; mas quis, no entanto, argumentar.
Tenazmente refutado, caiu em cólera. Com o olhar aceso, levantou-se de um salto da cadeira, dizendo:
— Na terra, não há quem me possa tolher os passos. Desconheço em vós esse poder. Sou homem, sou livre.
Sabei. Quero amar, hei de amar. Não irei; não me apraz...
Os professos cabisbaixos, assistiam com ceticismo àquela revolta. Sabiam até onde ia o poder da Ordem de Jesus. Mediam as suas forças ocultas e os perigos que corriam um perjuro dela.
— Vossa Reverência parece ter esquecido o juramento: perinde ac cadaver, disse o Reitor com calma e reflexão.
— Que me importam os juramentos, os compromissos; que me importam eles, se antepõem ao meu amor, ao meu coração. Quero o inferno nas minhas duas vidas; quero perseguições, misérias, mas quero amar, Padre, quero amar; quero têla bem perto de mim, bem junto, a minha Alda, o meu Amor. Não irei, Padre! Dentro da minha alma, sou rei, sou Deus!
Os professos continuavam calados.
O Reitor levantou-se e mansueto discorreu:
— Deus é rei dentro de vós. Pensais isso? Que engano! Humilhado, despicado com o mundo, há quinze anos, batestes às nossas portas. Vínheis corrido da glória, do amor. De nada vos valeu vossa nobreza, vosso talento... Só a Ordem brilhava nas trevas dessa noite de vossa vida. Batestes e receberam-vos.
Ela, a Ordem, vos deu paz, sossego, abundância; não contente, vos deu também amor. Tudo o que quisestes em França, há quinze anos, a Companhia vos deu aqui. Não vos pediu ela, só obediência. Nada vos exigiu de sacrifício até hoje. Entretanto, ela vos pede agora uma pequena privação, objetais orgulhosamente que sois Deus, que sois rei, que vosso amor não quer... Como se vosso amor não proviesse da Companhia; como se ele não fosse uma esmola da Ordem!
Marquês de Fressenec, sede rei, sede Deus, mas notai bem: o que aqui vistes, não vistes; o que aqui ouvistes, não ouvistes.
Acabando de dizer estas palavras, padre Gaspar voltou-se para o irmão Secretário, recomendando:
— Vossa Reverência fará mercê de lavrar o compromisso de expulsão, de acordo com as Instruções Secretas.
O jesuíta puxou uma folha de papel e pôs-se a escrever.
Correio da Manhã - sexta-feira, 19 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO
Os Tesouros dos Jesuítas
D. Garça
II
Os Tesouros
(Continuação)
Entrementes, o marquês recostado à guarda da curul, pensava. A [ilegível], flexível, por toda a parte segui-lo-ia. Expulso, sem classe, erraria pelas aldeias e vilas. O amor fugir-lhe-ia, porque tinha razão o Reitor, seu amor era uma esmola da Ordem.
Que seria dele? Só, sem parceiros, sem mulher...
Na alma do marquês havia o caos. Tudo se chocava, tudo se baralhava; nem um sentimento definido. Por fim, acovardado, ajoelhou-se e implorou:
— Perdoai-me, padre reitor, perdoai-me.
O semblante do velho religioso resplandeceu e, como de antemão se contasse com aquela cena, ergueu o professo do lajedo, calmo e meigo, e lhe disse:
— Prolfaças que obrastes bem, João.
Em seguida recomendou ao padre secretário:
— Rasgai o ato.
E para os capitulares reunidos:
— Transportemos agora para as salas as riquezas da Ordem.
(continua...)
BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.