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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

— Ali em baixo, entre penhas, andavam soltas as minhas cabras. Tenho ali o corveiro e o colmado cm que durmo. Nunca houve em tal sitio caso algum que m'o fizesse temer. Cantava cosendo as hervas do meu jantar quando, subitamente, densas trevas cercaram-me : sentime como em sepulcro e logo, accendendo-se uma claridade, todos os rochedos estalaram com estampido, abriu-se a terra em brechas e as minhas cabras, ai! de mim, abysmaram-se em precipicios profundos.

Entre todos, porém, o caso que mais aturdiu e espantou foi o de uma mulher, que tão depressa abalara do campo que lá deixara toda a sua fortuna, que eram alguns meaks e o seu gigo de uvas colhidas com desvello na sua vinha, que seccara.

E disse a misera:

— Vinha eu de vagar, cantando, quando o céu escureceu e lampejaram relâmpagos e rebentaram trovões. Achei-me entre brancos sepulcros. Atordoada, encosto-me a um d'elles e eis que a pedra por si mesma se afasta docemente, e silenciosa como as nevoas passam á flor dos outeiros nas manhans de inverno, e um morto, que ali jazia, sobe do fundo da terra, envolve-se na mortalha e, sem que os pés toquem o solo, parte, desapparece entre as arvores. Outros tumulos lançam de si os seus hospedes e eu os vejo a todos, a alguns reconheço. Vão-se, somem-se; e o ar embaisama-se com o cheiro das essências e eu fico tombada, transida de medo, entre os sepulcros vazios, sentindo a terra tremer e as lages arrastarem-se surdamente, de vagar.

Todas as vinhas ficaram esturricadas e as figueiras morreram. Fontes que nunca negaram agua estão seccas. Que terá havido ? Ai! de nós, pobresinhos...! e, como as nuvens se acastellassem em rolos negros, crescia o pavor do povo. Aves cruzavam-se nos ares, com gritos trágicos e a gente dos campos entrava, a cidade espavorida referindo o que vira e, como do uma casa sahisse um velho, que todos sabiam entrevado, e corresse, com as grandes barbas ao vento, parando, de instante a instante, para apalpar as pernas que se lhe haviam destravado, conduzindo-o com ligeireza fácil, o povo precipitou-se empós elle, chamando-o, bradando-lec o nome. E o velho lançava os magros braços acenando para o céu turvo e corria, sem mostrar fadiga, gosando a delicia d'aquella liberdade.

No próprio palacio do governador era desusado o movimento — roldas de legionarios passavam em marcha accelerada, soavam buzinas. A cidade estava toda em alvoroço.

Os mercadores, abandonando as lojas, saldam a noticias mettendo-se nos grupos, confundindo as suas tunicas com as pelles sordidas dos pastores airados, que não se atreviam a voltar ao campo e acolhiam-se, com medo, aos pateos, mettiam-se nas alfurjas, murmurando preces, beijando devotamente os seus amuletos.

Dois homens, com ordens de Pilatos, levando aos hombros pesadas barras de ferro, chegando ao Golgotha, procuraram o centurião e, depois de ligeiras palavras, trocadas em voz baixa, encaminharam-se para. o lugar em que avultavam as cruzes e, descançando as barras, ficaram, um momento, a olhar os pacientes.

Os ladrões ainda viviam. Um d'elles, o que desafiara Jesus a fazer um milagre, debatia-se contorcendo-sc em grande desespero, como procurando arrancar-se do poste. A barba, negra e dura, crescia-lhe no rosto como um sarçal em barranca, os cabellos empastavam-selhe na fronte, os olhos chispavam, queimavam.

O outro, a boca aberta, os olhos languidos, amortecidos sob as pendidas palpebras, arquejava com ânsia e, de instante a instante, um gemido escapava-se-lhe do peito vincado pelas costelas. Um dos homens adiantou-se e, sorrindo sinistramente, falou ao ladrão mais robusto :

— Éh ! lá, amigo. Sempre é melhor a vida livre na estrada que os mercadores freqüentam. Tinhas o teu fojo e afiavas a faca no lombo das pedras. A noite, mal ouvias vozes ou tropel d'animaes, sabias com os do teu bando e, drum salto, estavas sobre a victima que marcáras. Que te importava o sangue ? O golpe era certeiro e o saque pagava o trabalho e a vigilia. Eras homem de acção e deves sentir essa immobilidade. Para um rapaz como tu, convenho que a posição não é lá das mais commodas. Vamos acabar com isto.

O ladrão lançou-lhe um olhar faiscante de odio e, vendo-lhe a barra em punho, teve um arripio, tentando instinctivamente encolher as pernas.

Já resoavam pancadas surdas cortadas por gemidos — era na cruz de Dímas, o bom ladrão, primeira victima do crurifragium.

O carrasco que falara, como para alongar a agonia do criminoso que lhe coubera e que continuava a ameaçar, a injuriar, sentou-se numa pedra, com a barra deitada sobre os joelhos. E zombava com um risinho cruel:

— Encolhes as pernas ? Se é para as fazer menores não te dê isso cuidado, deixa por minha conta. Em tal serviço não ha, mesmo em Roma, quem se possa medir commigo.. Garantote que has de ficar satisfeito.

Os assistentes, que se ajuntavam além do limite traçado pelo centurião, riam das zombarias do carrasco. E elle levantou-se, tomou a barra a mãos ambas, meneou-a.

O ladrão soltou um urro feroz e sacudiu-se com tal violencia que a cruz ficou longo tempo oscillando.

Outro golpe e as pernas dobraram-se, o corpo escorregou sem apoio, ficando apenas mantido pêlos braços retesos.

(continua...)

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