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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Vivia de expedientes, de pedir a este ou aquele, de arranjar proteção para tavolagens em troco de subvenções disfarçadas. Sentia necessidade de voltar ao ofício, mas estava desabituado e sempre tinha a esperança de um emprego aqui ou ali, que lhe haviam vagamente prometido. Não sendo nada, não se julgava mais operário; mesmo os de seu ofício não o procuravam e se sentia mal no meio deles. Passava os dias nas casas do congresso; conhecia-lhe os regimentos, os empregados; sabia dos boatos político e das chicanas eleitorais. Entusiasmava-se nas cisões por ofício e necessidade. Era este o Lucrécio que, ao entrar, fez com tos jovialidade:

— Bons dias.

Todos responderam e ele esperou que lhe perguntassem a que vinha. Esperou com muito acanhamento e respeito. Respondeu:

— O doutor Neves manda dizer a V. Exa. que não deixe de ir logo à tarde ao Senado.

— A que horas?

— Aí pelas três horas.

Edgarda voltou-se para Lucrécio e indagou naturalmente:

— Você sabe de alguma coisa?

— Eu, minha senhora, não sei bem, mas ouvi rosnar.

— O quê?

— Não sei... mas parece... eu não sei... A questão é do novo presidente. O Dr. Bastos...

— Ele sabe?

— Homem, minha senhora, ele é o macaco fino...

— Quem é o novo? Não é o Xisto?

— Não sei, mas se há “encrenca! é porque não é do gosto do “velho”.

Numa pôs fim à conversa mandando que ele fosse almoçar. Lucrécio conhecia a casa e os criados, com os quais era familiar. Almoçou na copa com todo o desembaraço, como fazia na casa deste ou daquele parlamentar. O copeiro perguntou-lhe:

— Que há, Lucrécio?

— Olha: não digas nada. A força não quer o Xisto. Não digas nada. Querem pôr lá o ministro deles, o general Bentes... Não digas nada!

A saída do Barba-de-Bode não produziu o reatamento da conversa. Marido e mulher calaram-se. Pairou sobre eles uma atmosfera de apreensões e pressentimentos. As novidades do emissário, as suas meias palavras, o vago de suas informações, a imprecisão delas escondia algo tenebroso para as suas ambições. Viam na estrada obstáculos, viam-na interrompida bruscamente, violentamente. Sentiam a proximidade do imprevisto e esse sentimento se engolfava, avolumava-se, crescia neles, perturbava-lhes as sensações e as idéias, misturava umas com as outras, baralhava as lembranças; a consciência fugia de regulá-las, de encadeá-las; a personalidade perdia os pontos de referência. Era a catástrofe próxima, a catástrofe jamais esperada.

O dia ainda continuava lindo, fresco e tranqüilo; o chá foi servido quase em silêncio; a velha Romana olhava um e outro e não tinha nada a dizer. As breves palavras do serviçal e as que lhe eram dirigidas morriam no silêncio como se não fossem pronunciadas. O próprio copeiro servia sem desembaraço; parecia novo no ofício, constrangido. O ruído das xícaras era logo abafado. De quando em quando, o marido olhava a mulher, e esta aquele; e aos dois, com um olhar perscrutador, cheio de esforço de adivinhar, a velha D. Romana, tia-avó de D. Edgarda. Ia assim o almoço já ao fim, quando a cadelinha apareceu na sala. Correu para junto da dona, com acentuados trejeitos de contentamento; festejou-a e a moça afagou-a, dizendo:

— Olha a minha pobre Lili.

Apanhou-a ao côo, abraçou-a, dizendo:

— Coitadinha! Coitadinha dela! Onde estiveste, meu bem?

Levantaram-se da mesa e D. Edgarda pode dizer:

— Não deixe de ir ver papai. Essas coisas não se adiam.

Ela continuou a afagar a cachorrinha; Numa acendeu o charuto que teimava em apagar-se e respondeu com firmeza:

— Não deixo, não deixo!... Sei bem, muito bem, que é preciso ouvi-lo.

As mulheres afastaram-se, enquanto Numa sentado à cadeira de balanço, fumava, vendo desfazer-se a mesa do almoço. Essas reviravoltas, essas contramarchas na política, ele ainda não sabia adivinhar. Às vezes estava na votação de um projeto; outras vezes na notícia de um jornal; outras vezes em um boato, de forma que não sabia se à sua inexperiência ou a outra qualquer coisa devia atribuir essa falta de acuidade para descobri-las.



(continua...)

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