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#Contos#Literatura Brasileira

O Esqueleto

Por Aluísio Azevedo (1890)

- Duvidas então do êxito da minha última aventura?

- Não! não duvido... Era do meu futuro que falava e não do seu. O seu futuro é garantido: quemotivo teria eu para duvidar dele?

- Também me parece isso. Demais não foi só a minha ambição que trouxe os acontecimentosao pé em que estão: foi também a fatalidade que preparou tudo, dando-me este papel, que não posso recusar, porque há muito tempo que o desejava e pedia a Deus. Agora é caminhar.

D. Pedro alongou a vista pelo horizonte. Agora, galgada a serra, rasgavam-se as planícies verdes, cheias de tufos de árvores, arrepiadas de outeiros, circuladas de montanhas.

- Será talvez o primeiro do mundo, este país que Deus me quis dar, na sua justiça infinita.Desgraçado de quem, chegado ao meio do caminho, tem medo do desconhecido e dá as costas ao que tem de vir. Eu já não posso parar. Vencerei o futuro, ou serei vencido por ele. Mas serás meu, país abençoado...

E, parado, sofreando a carreira ao cavalo, de cabeça erguida, belo e transfigurado, o príncipe teve um largo gesto que varreu todo o horizonte.

Eabalou de novo, ato do galope, pela planície afora, como se quisesse chegar mais depressa a esse futuro que lhe sorria e que o chamava, acenando-lhe com uma coroa e com a glória da fundação de uma grande nacionalidade.

Depois de um longo silêncio, foi o Satanás o primeiro a falar.

- E já não é possível reprimir o ódio entre brasileiros e portugueses, senhor. São conflitosconstantes, rixas de todos os dias. E só o que se deve recear. Se a população portuguesa reagir? se mesmo a população brasileira recuar?

- Não recuará. Pois não foi o próprio povo quem me pediu que ficasse, exigindo que eurompesse com meu pai?

- Não há que fiar no povo, senhor. O povo quer uma cousa hoje e outra amanhã. De mais,mesmo confiando no povo, não se devem recear as alternativas da guerra?

- Mas as últimas noticias são boas. Labatut, na Baía, caminha de vitória em vitória. Venceremos.

E não falou mais, senão quando, no vale do Ipiranga, às margens do rio que se acachoeirava, espumando, entre ribas de verdura, ordenou que se fizesse um pequena parada de descanso, antes de entrar na cidade.

Todos se apearam.

Na serenidade da tarde, as palmeiras bracejavam no ar. Havia uma grande suavidade no céu muito azul, limpo de nuvens, cortado de asas. Os cavalos saíram pelo campo, a pastar. Os soldados estenderam-se na relva, prostrados por aquela caminhada longa, ao sol forte de setembro. Abriram-se as garrafas de cana, acenderam-se os cigarros.

D. Pedro e Satanás falavam de Marta, da peixada de escabeche, da beleza de Maria.

- Homem, por falar em peixada... fez d. Pedro, e disse uma cousa que fez o outro rir muito.

O príncipe riu também, e levantando-se, entrou numa moita.

Mais longe, na entrada do vale, levantou-se uma nuvem de poeira. Ouvia-se um galope. E, em breve, um cavaleiro apareceu. Ao chegar perto da comitiva, apeou-se, e deixou-se cair no chão, sem fala, coberto de pó, extenuado.

Tinham chegado a Santos, logo depois da partida do príncipe, novas notícias, ainda mais graves, ainda mais aterradoras.

Era ele quem as vinha trazer. Tinha viajado sem parar um instante, num galope louco pela serra acima.

O comandante do regimento foi procurar o príncipe. Encontrou apenas o Satanás, sentado numa pedra, cotovelos sobre os joelhos, face sobre os punhos, pensando.

- Onde está o príncipe?

O Satanás levantou os olhos e disse gravemente:

- Espere um pouco. Está ocupado. Foi apanhar uma parasita.

Quando o príncipe veio, não o surpreenderam as notícias. Confirmava-se o consta de terem sido os deputados brasileiros obrigados a fugir de Lisboa. Esses deputados eram Antônio Carlos de Andrade e Silva, Cipriano Barata, Lino Coutinho e Diogo Feijó. Antônio Carlos, em plena sessão das cortes interrompido num discurso, bradara num belo assomo de indignação: - Silêncio, canalha! Quando fala um brasileiro ninguém o interrompe!

O governo português, diziam mais as notícias, dispunha-se a mandar uma esquadra para o Brasil, para reprimir a revolução. Era preciso agir, com a máxima urgência. D. Pedro não pestanejou. Chamou o comandante.

- A cavalo! forme o regimento!

E arrancou do chapéu o pendão azul e branco. Depois, tirou de uma árvore uma folha verde, listrada de amarelo, e, substituindo-a ao pendão, montou também a cavalo.

O regimento esperava, em linha, a voz de marchar. O príncipe estendeu o braço:

- A caminho!

E, com uma voz que ecoou longamente, na tarde radiante, pelas quebradas da serrania, soltou o seu grito de guerra - Independência ou morte!

IX

O INQUÉRITO

Mal chegado de São Paulo, depois daquele sucesso imprevisto da Independência, que abreviara a viagem de d. Pedro, o Satanás tratou de averiguar ocaso misterioso da rua do Conde.

(continua...)

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