Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Fecho o parêntesis e continuo a história.

Lourenço Taques ficou morando na cidade, e passou em bre ve de caixeiro a sócio da casa comercial do sogro. Mas se deixou de ter amo no negócio, teve na vida doméstica mais do que amo: teve uma senhora despótica em Ana Campista, que, em retribuição ao amor o mais cego e complacente do esposo deu apenas a este o disfarce de uma indiferença que mais tarde se transformou em desprezo, contido apenas pelo medo que ela tinha da autoridade e do desabrimento de seu pai.

Leôncio Peres era amigo do pai de Matilde, e esta e Ana se tornaram íntimas camaradas; e nas efusões de uma recíproca e decidida confiança fizeram um contrato de aliança indissolúvel e perpétua.

As senhoras costumam celebrar com freqüência tais ajustes, e os respeitam tanto como os governos os seus tratados de aliança ofensiva e defensiva. Nestes, como em outros pontos, os governos parecem pertencer ao sexo feminino.

Tratou-se do casamento de Matilde, e quis a má fortuna desta que Ana Campista, encontrando o noivo, Gil Soares, por ele se apaixonasse perdidamente. Mas, tão fementida como hábil a falsa amiga, vendo insensível aos seus agrados provocadores porém cautelosos, o jovem, que então só parecia ter olhos, ouvidos e coração para a sua noiva, mudou de plano, sacrificou o presente ao futuro, e calculou que, não podendo desposar o homem que amava, mais facilmente o tornaria seu amante depois de casado com Matilde, cuja família tão íntimas relações entretinha com a sua. Em seguida, pois, tão interessada se mostrou pelo casamento da incauta amiga, que esta a escolheu para acompanhá-la ao altar.

O mestre Valentim havia, portanto, acertado no juízo que fizera de Matilde e de Ana Campista, vendo e apreciando a malícia do sorriso de uma e o fogo do olhar da outra.

Correram felizes e tranqüilos os primeiros meses que sucederam ao casamento de Gil Soares.

Ana Campista contemporizara com a lua-de-mel. Não deixou, porém, acabar o ano de noivado sem entrar em ação, e, tomando por pretexto os ajustes que celebrara com a amiga, principiou por lançar no seio desta amargas suspeitas de infidelidades do esposo.

A intrigante era auxiliada pelo indigno procedimento de Gil Soares, que, libertino antes, libertino continuou a ser, e bem cedo, depois do seu casamento.

Os ciúmes de Matilde irritaram Gil Soares. Para ambos, tornou-se o lar doméstico um purgatório; e Ana Campista, confidente da pobre esposa, e fazendo espiar todos os passos do marido infiel, ficou senhora dos segredos de um e de outra.

Na véspera do dia de Natal de 1787, Matilde foi jantar com Ana Campista, e depois da longa conferência que teve com ela, resolveu-se a passar a noite em sua companhia, com evidente satisfação do marido, que se despediu até ao dia seguinte, e retirou-se logo que anoiteceu.

Leôncio Peres ceou, como costumava, com o genro e a filha; mas as 9 horas da noite, saía o velho pela porta do seu quarto para adormecer profundamente alguns minutos depois.

Lourenço se admirara muito de que sua mulher não quisesse ir à missa do galo, sendo, como era, tão religiosa que nunca perdia festa alguma. Habituado, porém, a não discutir, e somente a obedecer às resoluções de Ana Campista, deu as boas noites a ela e a Matilde, e foi entregar-se ao mais tranqüilo sono.

Às 11 horas da noite, Ana e Matilde achavam-se envolvidas em longas mantilhas pretas, que escondiam completamente as formas e quase completamente o rosto de ambas.

– E teu marido não acordará? – perguntou Matilde com voz

trêmula.

– Não. Lourenço é um marido modelo. Dorme um sono só.

Esse, porém, dura apenas das 9 horas da noite até ao romper do dia.

– Mas... se por acaso acordasse?

– Dormiria outra vez – respondeu Ana com acento decididoe seguro.

– Sim... mas amanhã...

– Amanhã eu o faria pedir-me perdão de se ter acordado.

– Ana!

– Vamos.

E tomando a mão de Matilde, Ana Campista dirigiu-se à por ta da rua, que foi aberta de manso por uma escrava fiel.

As duas senhoras saíram e começaram a caminhar apressadas.

Mantilhas! Mantilhas! Já passou o tempo das mantilhas, e as senhoras talvez não calculem o que perderam.

O belo sexo condenou e proscreveu a mantilha, porque essa imensa capa, que envolvia inteiramente uma mulher, não deixava ostentar a gentileza do corpo, nem a riqueza dos enfeites e das jóias. Condenou-a e proscreveu-a, porque a mantilha era o manto com que se cobriam geralmente as velhas, as pobres e as mendicantes.

Como a vaidade faz errar as senhoras!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...147148149150151...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →