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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

– Pelo sorrir da noiva e pelo olhar da madrinha, adivinha-seque bem posso ter começado hoje a preparar aqui aposentos para ambas.

– Longe vá o agouro! – disse o vice-rei, afastando-se.

No entanto, chegara o cortejo nupcial à casa onde o esperavam o banquete e a festa.

Na sala, sentara-se a noiva ao lado da madrinha, e o cobiçoso noivo não tardou a ir ter com elas.

– Venho pedir-lhe contas de um sorriso – disse ele a noiva.

– Pois já? – observou a madrinha.

– Então? Preciso saber porque sorriu, passando em frente dacapela do Parto.

– Ri-me – respondeu a noiva, porque achei muito apropriadoque as obras da casa mais antipática do Rio de Janeiro fossem dirigidas pelo homem mais feio do mundo.

– Acha antipática, portanto, a capela de N. S. do Parto?

– A capela não. O recolhimento, sem dúvida.

– Mas por quê?

– Porque é um recurso da tirania dos maus maridos.

– Ah! Então receia que eu seja um grande tirano?

– Também não. Revolta-me a injustiça que sofre o meu sexo.Mas, quando mesmo eu fosse encarcerada no recolhimento do Desterro, não me conservaria aí por muito tempo.

– Que faria em tal caso?

– Incendiava-o.

– Ah! Sr. Gil Soares! – exclamou a madrinha. Tome cuidado.Veja que se casou com uma moça do fogo.

– Eu tenho as provas disso no meu coração – respondeu galantemente o noivo.

A conversação foi nesse ponto interrompida. Bastante, porém, durara, para se apreciar o caráter vivo e indiscreto da noiva.

Algumas palavras agora, para esclarecimento da história.

A noiva chama-se Matilde. Não ignoro, mas entendo que devo ocultar o seu nome de família. Contava essa moça 20 anos de idade. Tinha tido uma educação muito mais livre do que era de costume naquele tempo. Seu rosto era claro, regular, móbil e alegre. Seus cabelos castanhos. Seus olhos grandes, quase pretos, e sem contestação, formosos. Era, enfim esbelta, bonita, ardente e vaidosa.

A madrinha chamava-se Ana, e tinha o sobrenome ou alcunha de Campista, que não tirara do nome de seu pai, nem do de seu esposo. Contava perto de 30 anos, era alta, bem-feita, e, não podendo dizer-se bela, mostrava-se perigosamente voluptuosa pela cor morena carregada de seu rosto, pelo brilhantismo e audácia de seus olhos negros e por um não-sei-quê de provocador em seus sorrisos, em seus gestos e movimentos.

Ana Campista fora trazida de uma vila do interior por Leôncio Peres, seu pai, que viera se estabelecer com uma modesta casa de comércio na cidade do Rio de Janeiro e que um dia lhe apresentou um seu afilhado, Lourenço Taques, chegado uma hora antes daquela mesma vila, e disse-lhe sem consultas nem explicações:

– O Sr. Lourenço vai ser teu marido.

Lourenço ficou espantado e Ana curvou a cabeça. A notícia apanhara de surpresa os dois noivos, que eram quase desconhecidos.

Dito e feito. Dois dias depois, celebrou-se o casamento, a que Ana Campista se submeteu sem murmurar, porque seu pai era o tipo da severidade a mais violenta.

Leôncio Peres casara a filha, porque Lourenço lhe pareceu um bom partido. Ambrósio Taques casou o filho para livrá-lo de sentar praça de soldado. Nada mais simples.

O mestre-de-campo do distrito onde morava a família de Lourenço achou neste mancebo disposições para guerreiro e mandou-o recrutar; e, como o não encontrassem os seus agentes, fez trancar na cadeia da vila a Ambrósio Taques. Mas debalde, porque o enfezado velho zombou dos gritos e das ameaças do fidalgão mestre-de-campo, e não deu conta do filho.

No fim de dois meses saiu Ambrósio da prisão, escreveu logo ao seu compadre Peres e, recebendo a resposta deste, foi aos matos da fazenda, onde escondera Lourenço, e, sem dizer a este o fim a que o destinava, mandou-o para a cidade.

Este casamento assemelha-se a muitos outros daquele tempo, em que, por medo do recrutamento, os pais chegavam a casar meninos de 10 ou 12 anos com meninas que preferiam as bonecas aos maridos.

Entre parênteses. Não se lembrem os felizes viventes de hoje de persignarem-se para espantar o demônio do passado.

O demônio mudou de nome, de figura e de maneiras. Mas se recolheu ainda ao Inferno. Chamava-se mestre-do-campo e chama-se hoje aí por fora delegado de polícia, e faz pouco mais ou menos as mesmas diabruras que fazia dantes. Neste século e depois da constituição, já um dia prendeu para soldado a um bacharel em direito, prende e faz assentar praça a homens casados e a outros que têm por si isenção da lei, e que, apesar da lei recebem muito honradamente chibatadas nos lombos.

Por conseqüência, no fundo continua o mal a ser o mesmo. A única diferença que eu lhe encontro é que outrora o arbítrio era a verdadeira lei, e hoje a lei é o verdadeiro arbítrio. Se não compreenderem a metafísica desta diferença, consolem-se, porque eu também não a compreendo.

(continua...)

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