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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Disseram uns que a expulsão dos jesuítas, em 1759, arrefecera o zelo religioso dos habitantes do Brasil, ressentindo-se disso algumas piedosas instituições. Mas os fatos provam o contrário, e semelhante explicação não passou da roda das velhas confessadas dos padres da companhia.

Sustentaram outros que a decadência do recolhimento proviera da influência que exercia o belo sexo sobre o muito sensível vice-rei marquês do Lavradio. Mas ainda aqui o erro é positivo, porque o vice-rei marquês, sem dúvida muito apaixonado de todas as moças bonitas, e mesmo de muitas feias, era como S. Tomás, e queria que a seu respeito se dissesse também – façam o que ele diz e não o que ele faz.

Afirmaram, enfim, algumas senhoras que o fato era devido a um requinte de crueldade dos maus maridos, que, para mais atormentarem as suas mulheres, preferiam encerrá-las no recolhimento de Itaipu, esquecendo assim o de N. S. do Parto. As senhoras, porém, eram muito suspeitas para poderem ser imparciais juízes do caso.

O recolhimento do Parto decaiu, porque ainda não tinha rendas suficientes, e por que administradores desmazelados e sem capacidade deixaram que se fosse estragando a obra caridosa do bispo D. frei Antônio do Desterro.

Eis aí a melhor e a mais segura das explicações. Falta de dinheiro. Já viram lâmpada sem óleo conservar a sua luz? Desmazelo e incapacidade de administradores. Não estamos vendo todos os dias os resultados fatais de semelhante praga?

E ainda bem que para regenerar o recolhimento do Parto vão aparecer o vice-rei Luís de Vasconcelos e o seu braço direito, o mestre Valentim.

Mas também terá de mostrar-se, erguendo um facho de incendiária, uma mulher que violentamente se revoltou contra aquela instituição.

Deixai-me respirar. Contar-vos-ei esta curiosa história no próximo passeio.

II

O vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, apesar de ter já empreendido e adiantado diversas e importantes obras na cidade do Rio de Janeiro, não pôde ver a decadência e a ruína em que se achavam a capela e o recolhimento de N. S. do Parto sem sentir vivos desejos de regenerar uma e outro.

Para Luís de Vasconcelos, o desejar precedia poucos instantes ao querer, e o querer se satisfazia logo pelo poder, que não tardava a mandar. E assim devia naturalmente observar-se no tempo do posso, quero e mando, que eram as três sublimes notas da música do despotismo, que no Brasil se cantava a compasso marcado pela mais infalível das batutas – o bastão do vice-rei.

Demais, o enérgico sucessor do hábil marquês de Lavradio tinha por sua vez descoberto o segredo de arranjar dinheiro, quando os cofres estavam exaustos, e de improvisar trabalhadores, quando não havia gente para o trabalho, como já ficou dito e demonstrado em um dos nossos passeios ao jardim público do Rio de Janeiro.

O desejo que teve Luís de Vasconcelos de regenerar a capela e o recolhimento de N. S. do Parto entrou, por conseqüência, em imediata realização. O mestre Valentim acudiu à voz do vice-rei e meteu mãos à obra. Somente um pouco desapontado por ver-se coagido a consertar e a acrescentar o edifício velho, em vez de construir um novo, que fosse digno da sua maestria em arquitetura.

Não me é possível marcar o dia em que começam as obras, no ano de 1787. Contaram-me, porém, uma história que provavelmente contém episódios inventados pela imaginação. Mas uma história a cujos fios prende-se a inauguração daqueles trabalhos, e vai toda ela acabar na catástrofe que dois anos depois ia destruindo completamente a capela e o recolhimento do Parto.

É claro que estou na obrigação de reproduzir aqui o romance do incêndio do recolhimento do Parto, para não deixá-lo ficar de todo perdido nas sombras do passado.

No momento em que terminava a cerimônia da inauguração dos trabalhos em presença do vice-rei, passou diante da capela, vindo da igreja, e pela rua de S. José, seguindo pela da Ajuda, o cortejo de um casamento, constando de duas elegantes cadeirinhas em que eram levadas a noiva e a madrinha, e do noivo, e dos parentes e amigos, que marchavam a pé.

É de regra que as noivas abaixem os olhos e procurem esconder-se às vistas dos observadores. Mas, por exceção a essa regra, a noiva que passava abriu as cortinas da sua cadeirinha, mostrou o seu lindo rosto e, encarando o mestre Valentim, não pôde conter um sorriso malicioso.

A madrinha seguiu o exemplo da noiva. Abriu as cortinas, olhou. Mas não sorriu, brilhando apenas seus olhos com uma flama ousada e irresistível.

O cortejo foi seguindo, e Luís de Vasconcelos, que estava perto do mestre Valentim, com quem gostava muito de gracejar, principalmente a respeito do belo sexo, de que o feio arquiteto era famoso apaixonado, perguntou-lhe a meia-voz:

– Que lhe parecem aquelas moças, mestre?

(continua...)

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