Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Acontecia às esposas ainda pior que às filhas. Umas porque realmente mentiam à fidelidade conjugal, outras porque, embora inocentes, eram aborrecidas por maridos indignos que se fingiam ultrajados na sua honra para se livrarem das pobres mulheres. Lá iam em castigo das faltas cometidas, ou sob pretexto de amores impuros, fazer penitência e corrigirem-se da perversidade do século no recolhimento do Parto.
Escusado é dizer que eu me refiro aqui somente aos pais prepotentes e testos, e aos maridos infelizes ou desmoralizados, sendo verdade que, apesar desses rudes e grosseiros costumes da sociedade dos séculos passados, muitos eram os casais que se felicitavam pela virtude e também pelo amor, e também não poucos os pais que não se ensurdeciam à natureza para serem opressores de seus filhos.
Entretanto, estas exceções não destruíam a regra que proviera daquela rudeza de costumes e da educação mais do que austera, quase bárbara, da sociedade daqueles tempos de despotismo do governo do Estado, e despotismo do governo das famílias.
Abusou-se, pois, não pouco, e certamente, como era de prever, do recolhimento do Parto, que se tornou um espectro ameaçador para muitas senhoras, e uma arma de prepotência e de disciplina doméstica para os homens.
Não havia fervura de briga de mulher com marido que não se abatesse com o encanto das terríveis palavras – “Olha o recolhimento do Parto!”
O marido voltava para casa depois da meia-noite sem explicar o motivo da sua ausência, via sem receio descoberto o segredo das suas infidelidades, negava à mulher um vestido novo para a festa de S. Sebastião, contrariava-lhe os desejos, zombava do seu amor, e se a vítima desprendia a voz e dava princípio a uma tempestade doméstica, o nobre Adão, sem se exaltar, sem se afligir, murmurava apenas – “Olha o recolhimento do Parto” – e a pobre Eva caía fulminada, quando não corria a abraçar o marido.
A idéia do bispo D. Antônio do Desterro tinha sido, portanto, aproveitada com admirável habilidade pelos maridos, e com razão condenada e aborrecida pelas senhoras, que maldiziam do prelado e teimavam em chamar o asilo – recolhimento do Desterro.
Eu vou contando estas coisas sem o mais leve temor de acender empenhos de imitação do passado, porque a nossa atual sociedade contrasta absolutamente com a dos dois séculos anteriores. Não duvido que haja maridos a quem sorrisse o pensamento da restauração do recolhimento do Parto. Nenhum, porém, se lembraria de falar em tal. Pois hoje em dia fora mais fácil estabelecer um asilo onde as senhoras casadas prendessem os maridos do que ressuscitar a antiga providência.
Mas no reinado do século décimo oitavo ainda não se falava em emancipações das mulheres. Ainda não havia no Rio de Janeiro casas de bailes, nem teatro de S. Pedro de Alcântara, nem companhia italiana, nem a rua do Ouvidor anunciava as ricas lojas de modas, o poder e a influência dominadora do belo sexo.
Os maridos eram senhores ainda, e acharam tão sublime o recolhimento do Parto, que chegaram a reputá-lo insuficiente. E como não tivesse morrido mais algum Estêvão Dias de Oliveira, realizou a favor deles um vivo obra igual à que se tinha feito com o legado de um defunto.
Manuel da Rocha, e outros que a ele se reuniram, fundaram em 1764, junto à matriz da freguesia de S. Sebastião de Itaipu (ou Itaipuig) outro recolhimento, sob a dedicação de Santa Teresa, para mulheres a quem agradasse o retiro do século, ou a quem algumas circunstâncias obrigassem a ir habitá-lo por castigo de culpas. O edifício depressa ficou pronto, começou logo a ser povoado, e...
Eu peço aqui toda a atenção das senhoras que porventura fazem a honra de acompanhar-me também no meu passeio.
E Manuel da Costa, o principal fundador do recolhimento de Itaipu, recebeu desde então o título grandioso de Protetor do Bem Comum!
Como o chamaram pela sua parte as senhoras, não sei. Mas sou capaz de jurar que foram os maus maridos que inventaram aquele título, os maus maridos que desde 1764 puderam dizer às suas mulheres – “Olhem o Itaipu”!
No recolhimento do Parto ainda as pobres reclusas podiam por entre as grades da sua prisão ver o povo passar pelas ruas, ver nas janelas fronteiras e em todas as que, embora afastadas, a seus olhos se mostravam, senhoras, talvez algumas amigas que as saudassem com os lenços, talvez algum primo... algum mancebo muito amado que as consolassem, correspondendo-se com elas por meio da telegrafia amorosa. Podiam ouvir o ruído das festas, e também conversar às vezes do locutório. Mas no recolhimento de Itaipu o desterro era completo, completa para as pobres moças a solidão.
O recolhimento de Itaipu foi prosperando. Mas à medida que ele prosperava, decaía o de N. S. do Parto, e a tal ponto que, em 1787, tanto a sua administração como as obras e o material da casa acharam-se no mais lamentável abandono.
Que causas determinaram a decadência desse estabelecimento?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.