Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
E, note-se bem, este João Fernandes não se lembrou de pedir, nem de esperar que por tão boa ação o rei de Portugal, que então era D. João IV, lhe mandasse nem hábito, nem comenda de ordem alguma. Contentou-se o pobre homem com as glórias da sua opa, o que pode muito bem servir de lição àqueles que no nosso tempo apenas acabam de assinar algumas dezenas de mil-réis, ou de prestar algum serviço para uma obra pia, ou de interesse público, ou de manifestação patriótica, vão logo calculando e sonhando com a tetéia que devem ganhar por isso, e dão aos diabos a caridade e o patriotismo, quando não ganham aquilo a que aspiram.
A morte do bom João Fernandes não arrefeceu o ardor dos devotos de N. S. do Parto, em cuja capela organizaram-se irmandades e foi exercida uma santa hospitalidade, como o podem testemunhar S. Jorge e S. Pedro. S. Jorge, que até algum tempo depois de 1753 ali se conservou tranqüilo e venerado, e que antes houvesse ficado sempre debaixo daquele teto benéfico, porque assim não passaria pelo desgosto de lhe deitarem a casa abaixo, como há bem poucos anos aconteceu para grande vergonha da sua irmandade, que não soube regenerá-la. S. Pedro, que em 1705 ali se foi hospedar, quando S. José, ou por ele a competente irmandade, sem a menor cerimônia o despediu da sua igreja.
No século XVIII ajuntou-se à capela de N. S. do Parto um notável apêndice que modificou não pouco a sua vida suave, modesta e sossegada.
Estêvão Dias de Oliveira deixara por sua morte uma avultada soma para se distribuir em benefício de sua alma, depois de satisfeitos alguns legados que dispusera.
Ah! Que regalo! Que mina de caroço para certos testamenteiros da nossa época! Mas o bispo D. Frei Antônio do Desterro, fazendo-se então testamenteiro do legatário, e vendo cumpridas as disposições por este especificadas, aplicou, obtido para isso, o breve pontifício, mas de quarenta mil cruzados que ainda tinham ficado à fundação de um recolhimento para asilo de mulheres não virgens que, deixando a perversidade do século, fossem ali reformar os costumes repreensíveis, trocando-os por santo e regular comportamento.
No ano de 1742 foi lançada a primeira pedra do estabelecimento, que em breve se mostrou pronto para receber e guardar não poucas arrependidas.
Mas não foram somente arrependidas que para o novo asilo entraram.
Duas classes de reclusas o povoaram. A primeira foi composta de algumas velhas e matronas, umas fugindo cansadas dos enganos do mundo, outras desprezadas pelo mundo delas cansado. Eram as recolhidas voluntárias. A segunda constou de senhoras casadas e moças solteiras obrigadas a retirar-se para essa reclusão em castigo de faltas cometidas ou de supostas faltas, e em punição de desobediência à vontade de seus pais.
Tratarei deste estabelecimento em relação ao segundo fim a que foi destinado. Esquecerei as recolhidas voluntárias, que estavam no seu direito, divorciando-se e separando-se do mundo. Faziam muito bem em esconder-se de um mundo de que não gostavam e que provavelmente já não gostava delas. O que vou dizer não se entende, pois, com as voluntárias.
A segunda classe das recolhidas terá quase exclusiva menção neste passeio, que vai tocar muito de perto nos direitos e na causa social do sexo feminino.
Creio que não havia inconveniência em obrigar a amar exclusivamente a Deus uma senhora casada que tivesse amado demasiadamente a um próximo que não era seu marido. Parece, porém, que alguns lamentáveis abusos misturaram no recolhimento esposas inocentes com esposas culpadas.
Sobretudo, julgaram as senhoras que era uma iniqüidade estabelecer-se uma reclusão para as esposas infiéis, onde não havia reclusão para os esposos infidelíssimos.
Devemos todos acreditar que o pensamento do bispo que fez construir aquele recolhimento era piedoso e santo. Mas certo é que os homens se aproveitaram do asilo para atormentar como acabo de dizer, algumas inocentes, e castigar algumas culpadas senhoras, que por isso rogaram pragas ao velho e venerando prelado.
O bispo denominara acertadamente o asilo que levantara recolhimento de N. S. do Parto. As senhoras, porém, em suas conversações particulares, davam-lhe o nome de recolhimento do Desterro, não porque Antônio do Desterro se chamasse o prelado, mas porque um desterro foi considerado por elas aquele asilo.
E não eram somente as senhoras casadas que maldiziam do recolhimento, também as solteiras antipatizavam com ele, pois, sofismado o fim para que se criara o asilo, encerravam-se ali meninas e moças ainda não casadas a pretexto de irem receber no piedoso retiro educação moral e religiosa.
É preciso dizer que o bispo D. Antônio do Desterro foi
sempre pouco simpático ao belo sexo, e carregou com as culpas dos abusos a que
deu lugar o recolhimento do Parto.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.