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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Naturalmente hei de nos meus passeios esbarrar mais tarde com algum Manuel de Sousa merecedor de elogios, e ficará por esse modo fundada com a necessária solidez a glória da maior parte dos estadistas de minha terra.

Apesar deste meu empenho há de o passeio de hoje ser feito a galope. Os meus companheiros não se arrepiem com a palavra que acabo de empregar, por nos acharmos todos a pé. Aquele substantivo cavalar ficou definitivamente humanizado desde que nos bailes e nos salões mais elegantes galoparam noites sem conta homens tão sábios como a enciclopédia, e senhoras tão delicadas e mimosas como as violetas e as pumilas.

Passearei, pois, a galope, e é indispensável que o faça, porque, se a custo achei quem me perdoasse o vagar com que passeei por um convento de frades, pela igreja dos padres e por um colégio de meninos e rapazes, não haveria quem me absolvesse e não fizesse maus juízos de mim, se eu procedesse do mesmo modo hoje que, visitando uma das nossas antigas capelas, terei de penetrar também em um recolhimento de mulheres sem voto, por conseqüência, recolhimento inflamável e tão inflamável que até houve uma noite em que chegou a incendiar-se.

Eia, pois, meus companheiros de passeio, a galope! Vamos ou pela Rua do Parto, dantes tão famosa pelas excelentes balas que tomaram dela o nome e pelos cupidos de alfenim que ali se vendiam, ou pela Rua da Ajuda, célebre pela poderosa Floresta (casa assim chamada) onde se planejou o golpe de estado de 30 de julho de 1832, que felizmente abortou, ou pela Rua de S. José, que nos lembra as primeiras campanhas da homeopatia na cidade do Rio de Janeiro, ou enfim, pela Rua dos Ourives, onde quase não há mais ourives. Vamos chegar à capela de N. S. do Parto.

Façamos de conta que viemos pela primeira daquelas ruas. Eis aí a capela, não duvideis. A verdade nem sempre é verossímil. Podeis acreditar que estais diante da pequena igreja de N. S. do Parto.

Reconheço a procedência e o justo fundamento das vossas dúvidas. Este casarão que temos à vista pode muito bem não parecer capela ou igreja a quem ainda não ouvisse dizer que o é alguma pessoa insuspeita e digna de crédito.

A capela apresenta aos olhos do observador duas faces. Uma, que se levanta na extrema da rua dos Ourives, indica no edifício a existência de três pavimentos que abrem para o exterior, os dois superiores cinco janelas de peitoril cada um, e o térreo apenas alguns respiradouros com grades de ferro. Liga-se esta face à outra que se estende na direção da rua do Parto, e que é rasgada por duas portas, a primeira abrindo para o corpo da igreja, e a segunda ladeada de janelas defendidas de alto a baixo por grades de ferro, que é a da sacristia. Na parte superior deste lado do edifício mostram-se quatro grupos de janelas, tendo o primeiro quatro de peitoril, duas superiores e duas inferiores, o segundo duas de peitoril, o terceiro outras duas com grades de varões de ferro, o quarto três mais juntas com balcões de grades igualmente de ferro. Os dois últimos grupos parecem pertencer a uma casa estranha ao resto do edifício, pois que até o telhado é nesse extremo muito mais baixo. As janelas não estão dispostas na mesma linha. O aspecto exterior da capela é triste e sem majestade. A arquitetura não se ocupou dele nem metade de um minuto. Torre é coisa que aí não se encontra, e o sino, escondido misteriosamente no interior da pequena igreja, faz às vezes ouvir o seu dobre, que parte de um asilo invisível como a voz que sai de uma gruta profunda.

A este casarão, à capela de N. S. do Parto, une-se outro que se levanta na rua dos Ourives e chega até à da Assembléia (que ainda há poucos anos se chamava da Cadeia), onde também oferece uma face. Consta de três pavimentos, um térreo e dois superiores. O primeiro, além de uma portaria ladeada de janelas, aloja diversas oficinas. Dos dois outros tem para a rua dos Ourives o primeiro dezessete, e o segundo ou mais alto, dezoito janelas todas de peitoril; e menos irregular para a rua da Assembléia, ambos cinco janelas também de peitoril, menos a segunda, que, tanto em um como em outro pavimento, apresenta um singelo parapeito de grades de ferro.

Hoje em dia, este segundo casarão serve para um mister que é absolutamente estranho à capela de N. S. do Parto. Como, porém, tempo houve em que se observava o contrário, e nesse casarão nos espera a lembrança de uma história que parecera um romance, julguei conveniente aproveitar o ensejo para fazê-lo notar.

Ficando assim descrito o aspecto exterior da capela e da casa que a esta se prende, aproveitarei o tempo, enquanto não chega o sacristão que nos deve abrir a porta, para contar-vos o que sei do passado desses dois religiosos tetos.

A capela de N. S. do Parto é a piedosa filha da devoção de um João Fernandes, habitante da cidade do Rio de Janeiro, homem pardo, natural da ilha da Madeira, o qual, depois de levantá-la no ano de 1653, ornou os seus altares e manteve zeloso o seu culto.

(continua...)

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