Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Os alunos do internato, recebendo a sagrada imagem de S. Joaquim da antiga igreja do colégio, ficaram possuídos da justa e louvável devoção que desde o século passado excitava este velho e santo patrono, e anualmente o festejam com o possível brilhantismo, sendo muito concorrida a festa que se celebra em honra dele no internato.
Descrevendo o edifício que acabamos de visitar esqueceu-me dizer, e era preciso fazê-lo, que não somente todas as salas do pavimento inferior que cercam o pátio pelos lados direito e esquerdo e pelo fundo, mas ainda o grande salão do pavimento superior, foram construídos de 1857 a 1860 à custa do governo, que deu assim mais algumas proporções à casa insuficiente em que se estabeleceu o internato.
As novas obras têm sido executadas com habilidade, harmonizando-se tanto quanto é possível com a casa que se achou feita e adaptando-se ao fim para que elas se destinam.
São já por certo notáveis os melhoramentos. Entretanto, é indispensável que ainda muito mais se faça, e depressa.
Ora, infelizmente depressa, ou ao menos a tempo, quase nada se executa no Brasil.
Desde 1858 se observa que muitos meninos que pedem para serem admitidos no internato ficam sem conseguir o que desejam, por falta de acomodações no estabelecimento.
Nos últimos meses de 1860, a imprensa da capital bradou pela necessidade de se darem maiores proporções ao edifício do internato, e lembrou ao governo a conveniência de se aproveitar o tempo das férias, dois meses, para se adiantarem as obras necessárias.
O governo reconheceu a procedência e justiça de tal pedido, e os mandou ou fez começar os trabalhos para aumento do edifício do internato depois de abertas as aulas, em 1861!
Atualmente, e chegamos ao princípio das férias de 1861, é positivo que o internato não pode acrescentar mais um único leito nos seus dormitórios, e que, por conseqüência, em 1862, só receberá tantos novos alunos quantos forem os antigos que se despedirem. E o governo, que de tudo isso tem conhecimento, o governo, que tem a certeza de que se hão de contar por dezenas os meninos que pretenderem serem admitidos no internato, ainda não mandou dar começo às obras que o estabelecimento reclama indispensavelmente para corresponder ao menos por metade às justas exigências do país.
Um falso princípio de falsíssima economia tem feito com que vão sendo executados aos poucos os trabalhos de que o internato do Imperial Colégio precisa instantemente. Em um ano, fez-se uma nova sala. No ano seguinte, uma outra, mais tarde empreendem-se novas construções, e no fim de cem anos se completará o que se poderia realizar em alguns meses com uma despesa evidentemente menos avultada.
E além desse erro grave de economia, a população vai sofrendo, e o internato é obrigado a trancar as suas portas e a despedir grande número de meninos, para quem os pais vêm pedir o cultivo da inteligência.
A administração pública no Brasil, quando não caminha para trás, espanta pela sua morosidade. Se escapa de ter a natureza de caranguejo, não escapa de ter a natureza de preguiça. Pois olhem, não sei qual dos dois animais é mais feio!
Em nome da mocidade estudiosa, eu peço ao governo que tenha mais atividade e mais zelo, e que se lembre das obras de que indispensavelmente carece o internato do Colégio de Pedro II.
Lembre-se ao menos o governo de que este colégio se honra com o nome do Imperador, e de que o Imperador o distingue e protege, e não perde uma única ocasião de manifestar o interesse que por ele toma.
Basta.
Outra vez aos carros, meus bons amigos! Voltemos de novo à cidade, onde nos esperam outros passeios, sem dúvida mais breves e menos monótonos do que os últimos, a que hoje ponho termo, despedindo-me do Imperial Colégio de Pedro II.
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A Capela e o Recolhimento de N. S. do Parto
I
OU César ou João Fernandes. Assim diz um rifão antigo, que com essa injustíssima e cruel antítese faz no nome e sobrenome João Fernandes um sinônimo de nonada, como outro fez também de Manuel de Sousa um sinônimo de tolo.
Protesto contra esses rifões revoltantes e iníquos, e comigo protesta igualmente o Brasil, que debaixo dos pontos de vista da política e da administração, tem sido elevado às grimpas por não sei quantas dúzias de Joões Fernandes e Manuéis de Sousa que se resolveram a felicitá-lo.
Mas, pela minha parte, não me limitarei a protestar; antes,
estou firmemente disposto a provar com a lógica irresistível dos fatos a
injustiça daqueles rifões. É um serviço que desejo prestar aos estadistas das
dúzias de que acima falei, e dou parabéns à minha fortuna, porque já no meu
passeio de hoje encontrarei logo ao encetá-lo um João Fernandes, que no Rio de
Janeiro se tornou recomendável por uma ação meritória.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.