Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Até o ano de 1854 eram três os prêmios, e havia ainda mais duas menções honrosas, constando aqueles de livros clássicos ricamente encadernados, e recebendo o aluno merecedor do primeiro prêmio uma coroa de louro e café com que o Imperador lhe cingia a fronte.
O regulamento de 1855 reduziu os prêmios aos seguintes:
Primeiro: um livro de encadernação dourada e uma coroa entretecida de louro e café.
Segundo: um livro de igual encadernação.
Terceiro: um livro de encadernação menos rica.
As menções honrosas desapareceram, portanto. Mas, em lugar delas, eram proclamados os nomes dos alunos aprovados com distinção.
O regulamento de 1857 conservou os três prêmios, consistindo todos em livros de encadernação dourada. Acabou com a coroa de louro e café, manteve a disposição pela qual o reitor proclama os nomes dos alunos aprovados com distinção.
As cerimônias da colação do grau de bacharel, que tem lugar imediatamente depois da distribuição dos prêmios, são ainda as mesmas que dantes se observavam, e de que já dei conta, quando tratei da legislação do Imperial Colégio de Pedro II.
Completam esta bela solenidade um discurso lido pelo professor de retórica e os hinos e as harmonias de uma orquestra dirigida pelo professor de música.
Eis aqui o número dos bacharéis que até o ano de 1860 nos tem dado o Imperial Colégio de Pedro II, em 1843, oito; em 1844, cinco; em 1845, onze; em 1846, seis; em 1847, oito; em 1848, dez; em 1849, trinta e dois; em 1850, dezoito; em 1851, vinte e um; em 1852, quatorze; em 1853, vinte e dois; em 1854, quatorze; em 1855, oito; em 1856, onze; em 1857, cinco; em 1858, doze (sendo dez do externato e dois do internato); em 1859, seis do externato; em 1860, dez (sendo seis do externato e quatro do internato). Ao todo, 221 bacharéis.
Nada mais tenho que acrescentar ao que deixo escrito a respeito do externato do Imperial Colégio de Pedro II. Partamos, pois, para o internato.
Os carros nos esperam, meus bons companheiros de passeio.
– Os carros?
– Pois, que dúvida! Da cidade ao Engenho Velho há perto deuma légua de caminho, e não é agradável fazer semelhante viagem a pé.
– Mas então, como se arranjam os professores que devem irao internato de doze a quatorze vezes por mês? O governo paga-lhes as despesas da viagem?
– É verdade. Mas de um modo muito engraçado. O governocalculou que, fazendo-se tal viagem em ônibus ou nos carros da Tijuca, gastaria cada professor 1$ na ida e volta. Como, porém, é muito liberal, concedeu 2$ de ajuda de custo para cada viagem de ida e volta aos professores.
– Ah! o dobro! Ainda bem.
– Sim, o dobro. Mas o governo esqueceu que não há ônibusnem carros da Tijuca a todas as horas, e que, si os professores os têm para a ida, ficam sem eles para a volta.
– E, portanto...
– E, portanto, gasta cada um professor de 5$ a 7$ em cada viagem, e assim lá se vai em tílburi ou em carro, além da ajuda de custo, quase toda a gratificação mensal que percebem no internato!
E o mais interessante é que, quando um professor deixa de dar aula, perde a gratificação correspondente ao dia em que faltou, e também perde a ajuda de custo. Somados, porém, estes dois prejuízos, ficam eles ainda muito aquém da despesa que se faz com a viagem. De modo que o professor ganha mais dinheiro não indo ao colégio do que ganha quando comparece nele, o que chegaria a fazer supor que o governo paga a excita os professores do Colégio de Pedro II para não irem ao internato.
Esta inocente e brevíssima conversação que acabo de ter com os meus companheiros de passeio fez-nos passar, sem que o sentíssemos, além de casa de correção e do bairro de Mata-porcos. O resto da viagem é tão agradável, que não precisa ser conversada. O nosso carro vai rodando pela Rua do Engenho Velho, e portanto, por entre jardins.
Eis-nos chegados. Aí está junto do pontilhão a antiga cruz de pau com a sua caixinha das almas, que um vigário da freguesia do Engenho Velho mandou ali levantar para recolher as esmolas dos fiéis que passassem.
Dobramos para a Rua de S. Francisco Xavier, e encontramos o internato na primeira chácara que nos fica à mão esquerda.
O internato está estabelecido na antiga chácara do Mata, e tem ao lado direito uma casa de secos e molhados, verdadeira e completa venda da roça, e ao lado esquerdo a matriz da freguesia do Engenho Velho. E (que vergonha!), a casa de secos e molhados ou a venda da roça, apesar de velha e feia, se apresenta em estado muito menos lamentável do que a igreja, que se acha tão arruinada que entrar nela é já um perigo, e manter ali o culto divino é uma indecência.
A frente da chácara em que se estabeleceu o internato é
defendida por um muro que sustenta uma gradaria de ferro. No centro, abre-se em
par um portão também de ferro.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.