Por Aluísio Azevedo (1891)
— Não sei que tem a cheirar na casa de Deus semelhante gente!... Mas que quer? Fizeram desta missa um divertimento! O culpado é o rei. Aposto que está aí também o duque de Fronsac, esse maldito libertino, que herdou todos os vícios de seu pai, o cardeal de Richelieu, sem herdar nenhuma das virtudes! Vem ao faro das aventuras, o desavergonhado!
— E o que aí está de homens ilustres... observou Cobalt ao ouvido do padre. Já avistei Favart, Gentil Bernard, Condorcet, Luchot, Fréron, d'Alembert, Diderot, Beaumarchais, Mali, Lavoisier...
— Este seminarista, declarou o outro, é com efeito de uma fortuna inacreditável! Creia, meu doutor Cobalt, que nunca vi tanta gente boa reunida numa igreja para ouvir missa! E uma missa nova! É extraordinário!
Mas Ângelo nesse momento saltava do carro para entrar com Ozéas na porta lateral da sacristia, e um rumor geral se levantava provocado pela sua chegada.
O Dr. Cobalt afastou-se de carreira, a ver se arranjava um lugar na capela, em que devia ser a iniciação do adorado presbítero.
A capela, suntuosamente preparada para a cerimônia, refulgia, fulgurando de luzes e de ouro, de alvas rendas preciosas, brilhantes colgaduras de damasco e riquíssimas alfaias de mil cores.
Grande esplendor! Grande riqueza! Grande deslumbramento!
O altar-mor, onde Ângelo ia celebrar, parecia sair de dentro de um imenso ramalhete, tão grande era a profusão de rosas, que as damas lançavam nos seus degraus à medida que iam chegando.
As tribunas regurgitavam de mulheres luxuosamente vestidas, e venustamente decotadas à moda caprichosa do tempo. Viam-se formidáveis penteados, em que cintilavam diamantes por entre pérolas e plumas de cristal finíssimo.
Legros, então o mais querido entre os mil e duzentos cabeleireiros do bom-tom, passara três noites em claro a aviar toucados, sem conceder mais de dez minutos a nenhuma cabeça, e ocupando sob suas ordens, naqueles últimos dias, mais de quinhentos ajudantes.
E toda aquela gamenha gente, com as suas fantasiosas roupas de sedas multicores; as mulheres de saia e panier à Pompadour; os homens de casaca à la Ramponneau, com as suas cabeleiras empoladas, de três e quatro canudos, à la Sartines, grandes bofes de cambraia, chapéu de três bicos debaixo do braço e florete à cinta; toda essa gente, aglomerada, sussurrante e irrequieta, apresentava, no interior daquela austera e formosa catedral, o folião e brilhante aspecto de um luxuoso carnaval da corte.
Conversava-se e ria-se.
Mas, de repente, calaram-se todos e todos se agitaram. Os que estavam assentados puseram-se rápido de pé.
Era o rei que chegava, acompanhado por sua pomposa comitiva.
Com um gesto frio e distraído Luís XV fez um ligeiro cumprimento de cabeça, e deixou-se cair na cadeira à frente da real tribuna, cruzando as pernas negligentemente e bocejando de tédio.
O olhar que ele lançou para os sorrisos e para as reverências, que de todos os lados 0 recebiam, foi um pálido olhar de desdém e cansaço. A ceia da véspera devia ter sido prolongada.
Ouviram-se, então, do lado do coro, as primeiras notas, severas e plangentes, do órgão.
Ia começar a missa.
Algumas pessoas preparavam-se já para a contrição. Muitos ajoelhavam, de mãos postas e cabeça baixa. O silencio estendia-se respeitoso. Vieram do alto vozes de cantores, e o vermelho cabido respondeu cá de baixo, também cantando, junto às suas estreitas cadeiras de alto espaldar de madeira negra.
Ângelo, ricamente paramentado com as vestes talares com que o presenteara o rei, tinha chegado ao altar, e, dentre uma nuvem de incenso, erguia-se no êxtase da sua oração, com os braços abertos, os olhos postos na doce imagem de Cristo crucificado. Estava belo como um jovem Deus!
Assim, nos seus suntuosos damascos bordados, parecia um anjo todo vestido de ouro. E o seu formoso rosto era bem o rosto de marfim, de que falava na Bíblia a triste e voluptuosa filha de Jerusalém, decantando o seu amado.
Ozéas servia-lhe de acólito. E a sua curva figura, detrás daquele moço, lembrava, no trêmulo arrebatamento da contrição, o vulto de um velho rei louro, irmão de Lear, guardando com os olhos ansiosos o seu lindo príncipe desejado por todas as mulheres.
E, com efeito, sobre Ângelo, de todas as tribunas, desciam raios de tentação.
Alzira fitava-o como uma serpente paradisíaco.
A missa, entretanto, seguia o seu curso, inalteravelmente, por entre o vago murmúrio dos colos que arfavam, não de piedade, mas de desejo e de amor.
Mas, quando Ângelo, terminado o divino sacrifício, erguia o olhar pela derradeira vez, procurando o céu, seus olhos de repente se fecharam fulminados, e todo o seu corpo estremeceu da cabeça aos pés.
Em vez do céu, seus olhos tinham encontrado o olhar de Alzira.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.