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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Gaspar ouvia cada vez com mais interesse, as palavras de Violante.

— Entretanto, prosseguiu ela fazendo um ar triste, seu pai foi constrangido a mudar­se para o Rio de Janeiro, e como eu na minha qualidade de órfã, não podia ser carregada da pátria, assim sem mais nem menos, resolveu ele meter­me como pensionista em um colégio aqui, onde nada me faltaria.

E dando piparotes na cinza do cigarro, a oriental acrescentou, mudando de tom:

— No colégio levei até aos dezesseis anos, quando tive o meu primeiro namoro foi com o filho da diretora, Paulo Mostella; um mocetão vivo, forte e velhaco. Por duas vezes furtou­me beijos, de uma quis ir mais longe; eu, porém, tinha felizmente algum juízo e cortei­lhe o arrojo com uma tremenda bofetada. Paulo declarou­me então, cheio de raiva, que nunca tencionava casar comigo, porque sua família não consentiria em tal loucura — eu afinal era uma rapariga sem eira, nem beira! Todavia, fui, pouco depois, pedida por um negociante muito rico e sumamente estimado da sociedade de Montevidéu; chamava­se D. Tomás de los Rios. Era um homenzarrão, ainda fresco, muito amável, muito bom e com muito caráter. Casei­me e fui feliz durante esse tempo. Meu marido adorava­me, fazia­me todas as vontades. Levou­me a correr a Europa, mostrando­se ser agradável. Quando voltamos do nosso longo passeio, trazíamos um filhinho — Gabriel. Tomás principiava, entretanto, a sofrer da moléstia que o havia de matar. Tornamos a sair daqui em busca de ares mais favoráveis. Meu filho ficou. Tínhamos­nos dirigido para a Espanha; cheguei viúva a Madrid.

Fiquei bastante contrariada com a situação, e resolvi esperar que alguém de cá me quisesse ir buscar. Estava nestas circunstâncias, quando fui surpreendida um dia por um rapaz, que se atirou a meus pés, chorando e rindo com grande contentamento. Era Paulo Mostella.

Olhei­o sobressaltada, e certo é que então o diabo do homem me pareceu melhor do que dantes. Cheguei a calcular que o tempo e o traquejo do mundo lhe tivessem modificado o espírito, como lhe modificaram a fisionomia. Propôs imediatamente a casar comigo, e eu lhe declarei que não pensava ainda em preencher a vaga de meu marido, e que, se mais tarde me viesse semelhante idéia, só a realizaria um ano depois da morte de Tomás. Paulo falou­me com entusiasmo de uma grande paixão que por mim o devorava, e jurou que me amara sempre, e que aquele mesmo fato de se ter humilhado a procurar­me ainda, provava de sobra o muito que me queria. Enfim, tanto disse e tanto chorou, que acabou por me comover e persuadir. Fiz­lhe ver que, em todo caso, eu não me casaria aquele ano. Ele esperaria. Só o que desejava era possuir uma promessa. Prometi. E desde então o demônio do rapaz não me largou mais a porta. Passeios, teatros, bailes, touradas; tudo inventava para me agradar. Parecia viver unicamente para mim; dir­se­ia que todo o seu ideal era fazer com que o tempo corresse o mais depressa possível e que chegasse afinal o dia feliz da nossa união.

"Só voltaremos a Montevidéu casadinhos!" dizia­me ele, a beijar­me as mãos. E eu, em verdade, nem só já o suportava perfeitamente, como até sentia já por ele certa inclinação.

— Nós, as mulheres, somos muito fracas! explicou Violante com um olhar lastimoso. Se soubessem os homens o esforço que às vezes fazemos para sustentar o que a sociedade exige como tributo da nossa honestidade, dariam eles muito mais importância às nossas virtudes! Houve ocasiões, confesso, em que se me afigurou que Paulo tinha direito de ser mais atrevido do que realmente era.

E, voltando­se na cadeira, a oriental continuou:

— Uma vez propus­me um passeio ao campo. Aceitei e fomos.

A manhã era esplêndida. Uma bela manhã cheia de luz e temperada por um calor comunicativo e doce. Às seis horas metemo­nos em um carrinho de vime, leve como uma cesta, rasteiro como um divã e cômodo como um leito.

Paulo deu rédeas ao animal, e o carro nos conduziu para fora da cidade.

VI

PAULO MOSTELLA

— Eu sentia um bom humor extraordinário, prosseguiu Violante: o ar puro e consolador da manhã, pulverizado no espaço em vapores cor­de­rosa, enchia­me toda como de uma grande alma nova, feita de cousas alegres e generosas. Tive vontade de rir e cantar.

O sol principiava a destacar o contorno irregular das árvores e derramava­se transparente e suave. Sentia­me expansiva, alegre, tinha repentes de criança; e, não sei por que, Paulo nessa ocasião se me afigurou muito melhor do que das outras. Cheguei a achar­lhe graça e a desfazer­me em risadas com algumas pilhérias suas que fora dali me fariam bocejar.

Em certa altura paramos. Ele ajudou­me a descer, prendeu o cavalo, abriu a minha sombrinha, e começamos a andar de braço dado por debaixo das árvores.

(continua...)

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