Por Franklin Távora (1876)
Quando Joaquim voltou à casa, o menino correu a relatar-lhe o que tinha acontecido. O mau marido, o péssimo pai ralhou com Joana em quem por um triz não bateu; e para completar a lição e o exemplo pernicioso, prometeu a José que o primeiro preá que c fojo pegasse havia de ser sujeito a um gênero de morte que ele ainda não conhecia.
O menino mal pode dormir aquela noite. Nunca desejou tanto que a armadilha lhe desse caça. A curiosidade de conhecer a nova forma de matar os animais, prometida ao primeiro que tivesse a sorte de se deixar apanhar, o teve por muito tempo na maior excitação e vigília.
Pela manhã correu José ao fojo, onde encontrou, em lugar de preá, um coelho.
Era uma lindeza o animal. Gordo, coberto de macio pelo em que se divisavam ligeiras malhas tão alvas como o algodão que pendia dos capulhos estalados acima de sua masmorra, o filho do campo despertava, pela beleza das formas, e pela harmonia dos contornos, todos os sentimentos benévolos de que é capaz o humano coração. Os olhos reluziam como dois coquinhos polidos. O coração batia-lhe precipite qual se quisesse sair-lhe pela boca. E essa criatura tão cândida e inofensiva ia morrer! Oh, meu Deus, por que extravagante e bárbara interpretação das leis naturais há de o homem julgar-se com direito à vida de semelhantes entes que mais merecem a sua proteção do que desafiam a sua cobardia ?
Quando José, irresistivelmente cativo da formosura da inocente criaturinha, estava ainda admirando os seus encantos, um movimento violento arrancou-lhe das mãos.
— Meu coelho ! — gritou o menino sentido de lhe terem arrebatado a graciosa presa.
— Ah, supunhas que havias de por-me terra nos olhos, José ? Não, este lindo animal não morrerá.
— Sim, sim, mamãe; eu não o levarei a papai para o matar como ele disse; não quero que o meu coelho morra. Ele é tão bonitinho, que faz gosto. Quero criá-lo para mim, para mim só, já ouviu, mamãe ? Meu coelhinho tão bonitinho!
José estava fortemente comovido, e Joana, fixando nele olhos perscrutadores, leu em seu rosto a pureza e a sinceridade da sua comoção, indício irrecusável, senão prova convincente, da excelência das inclinações do filho. Todas as hesitações que traziam seu espírito em contínua inquietação dissiparam-se diante do enternecimento do menino de cuja brandura e natural bondade já não lhe foi lícito duvidar.
— Dê-me o meu bichinho, mamãe — Ó pediu José quase chorando.
— Ele é teu, José, e ninguém, ainda que seja teu pai, te privará dele. Mas, antes que o tenhas contigo, quero saber por curiosidade o que vais fazer do coelhinho.
— Ora ! Vou levá-lo para casa. Levo logo daqui capim bem verde para ele comer, e faço lá uma caminha no canto do meu quarto para ele dormir junto de mim.
— E se teu pai o quiser matar ?
— Pedirei a papai que o não mate, não. Olhe, mamãe: o melhor é eu ir esconder o coelhinho no mato sempre que meu pai estiver para chegar. Deus me livre de ver meu coelho morrer.
— Deus te livre, atrevido ! — Ó gritou ao pé da mulher e do filho o mau marido, o pai desnaturado, carrasco da família antes de sê-lo da sociedade e de si próprio.
E arrebatando com rudeza bruta das mãos de Joana o pobre animal, fez gesto de lhe quebrar a cabeça contra uma pedra que lhe ficava fronteira.
— Que queres fazer, Joaquim ? — Ó interrogou Joana, não obstante achar-se aterrada pela presença do marido.
— Ainda mo perguntas, mãe cobarde que só sabes dar a teu filho lições de mofineza ? Eu não quero meu filho para chorão.
— Mas eu também não o quero para assassino.
— Hei de ensiná-lo a ser valente. Há de aprender comigo jogar a faca, a não desmaiar diante de sangue como desmaias tu, mulher sem espírito que não tens animo para matar um bacorinho. Não sabes que o assassino é respeitado e temido ?
Queres que não haja quem faça caso de teu filho ?
— Mas eu não quero que meu coelhinho morra, papai. — Que estás tu a dizer, mal-ensinado ?
O menino quis chorar, com o que se mostrou escandalizado por extremo o tirano da família, que, para o fazer chorar com gosto, segundo disse, lhe deu três ou quatro cipoadas fortes, depois das quais José mal se pôde ter em pé. Joana, não podendo ver o filho apanhar sem razão, partiu para Joaquim, a fim de lhe tirar das mãos o pequeno, mas Joaquim repeliu-a com tanta força, que a fez cair por terra; e voltando-se imediatamente para José, perguntou-lhe com gesto e voz de aterrar:
— Então, mata-se ou não se mata o coelho, José ?
— Mata-se, papai — respondeu o pequeno com as faces banhadas de lágrimas ainda.
— Não quero que chores. Quem é homem não chora; quem é homem faz chorar.
E dando o andar para a casa, com o filho pela mão:
— Vais ver agora de que modo morre o coelho — disse com expressão que se não pode descrever.
— Meus Deus, meu Deus ! Que desgraça esta, que desgraça a minha! — exclamou Joana quando os viu desaparecer na volta do caminho.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.