Por Machado de Assis (1908)
Em caminho, mana Rita contou-me o que já sabe da carta de Tristão e da resposta que D. Carmo lhe mandou. Sabe mais que eu. D. Carmo leu-lhe as duas cartas. Tristão pede mil desculpas do longo silêncio de anos e lança-o à conta de tarefas e distrações. Ultimamente, já formado em Medicina, foi em viagem a várias terras, onde viu e estudou muito. Não podendo escrever as viagens, contar-lhas-á um dia, se cá vier. Pede notícias dela e do padrinho, pede-lhes os retratos, e manda-lhes pelo correio umas gravuras; assim também lembranças do pai e da mãe que estão em Lisboa. A carta é longa, cheia de ternuras e saudades. A resposta, disse-me mana Rita que é em tom verdadeiramente maternal. Não sabe mostrar-se magoada; é toda perdão e carinho. Só lhe faz uma queixa; é que, pedindo os retratos dela e do marido, não lhe mandasse logo o seu, o último dos seus, porque os antigos cá estão. Diz muitas coisas longas, lembra os tempos de infância e de estudo, e no fim insinua-lhe que venha contar-lhe as viagens. As gravaras são da casa Goupil.
Rita esteve com ela no dia 15, entre uma e duas horas da tarde, depois que a viúva saiu de lá para a casa do tio desembargador. Apesar da separação desta e suas saudades, sentia-se alegre com a afeição que cresce entre ambas, e igualmente alegre com a ressurreição do afilhado. Chama-lhe ressurreição por imaginar que o moço inteiramente os esquecera. Via agora que não, e parecia-lhe a mesma alma daqui saída. Falando ou calando, tinha intervalos de melancolia, e, de uma vez, acha mana Rita que lhe viu apontar uma lágrima, uma pequenina lágrima de nada...
23 de maio
Les morts vont vite. Tão depressa enterrei o leiloeiro como o esqueci. Assim foi que, escrevendo o dia de ontem, deixei de dizer que no armazém do Fernandes achamos todos os objetos de mana Rita notados e vendidos, e o dinheiro à espera da dona. Pouco é; recebê-lo-á oportunamente. Talvez não houvesse necessidade de escrever isto; fica servindo à reputação do finado.
Outra coisa que me ia esquecendo também, e mais principal, porque o ofício dos leilões pode acabar algum dia, mas o de amar não cansa nem morre. A culpa foi de mana Rita que, em vez de começar por aí, só me deu a notícia no Largo de S. Francisco, indo a entrar no bonde. Parece que Fidélia mordeu uma pessoa; foram as próprias palavras dela.
— Mordeu? perguntei sem entender logo.
— Sim, há alguém que anda-mordido por ela.
— Isso há de haver muitos, retorqui.
Não teve tempo de me dizer nada, trepara ao bonde e o bonde ia sair; apertou-me a mão sorrindo, e disse adeus com os dedos.
24 de maio, ao meio-dia
Esta manhã como eu pensasse na pessoa que terá sido mordida pela viúva, veio a própria viúva ter comigo, consultar-me se devia curá-la ou não. Achei-a na sala com o seu vestido preto do costume e enfeites brancos, fi-la sentar no canapé, sentei-me na cadeira ao lado e esperei que falasse.
— Conselheiro, disse ela entre graciosa e séria, que acha que faça? Que case ou fique viúva? — Nem uma coisa nem outra.
— Não zombe, conselheiro.
— Não zombo, minha senhora. Viúva não lhe convém, assim tão verde; casada, sim, mas com quem, a não ser comigo?
— Tinha justamente pensado no senhor.
Peguei-lhe nas mãos, e enfiamos os olhos um no outro, os meus a tal ponto que lhe rasgaram a testa, a nuca, o dorso do canapé, a parede e foram pousar no rosto do meu criado, única pessoa existente no quarto, onde eu estava na cama. Na rua apregoava a voz de quase todas as manhãs: "Vai ... vassouras! vai espanadores!"
Compreendi que era sonho e achei-lhe graça. Os pregões foram andando, enquanto o meu José pedia desculpa de haver entrado, mas eram nove horas passadas, perto de dez. Fui às minhas abluções, ao meu café, aos meus jornais. Alguns destes celebram o aniversário da batalha de Tuiuti. Isto me lembra que, em plena diplomacia, quando lá chegou a noticia daquela vitória nossa, tive de dar esclarecimentos a alguns jornalistas estrangeiros sequiosos de verdade. Vinte anos mais, não estarei aqui para repetir esta lembrança; outros vinte, e não haverá sobrevivente dos jornalistas nem dos diplomatas, ou raro, muito raro; ainda vinte, e ninguém. E a Terra continuará a girar em volta do Sol com a mesma fidelidade às leis que os regem, e a batalha de Tuiuti, como a das Termópilas, como a de Iena, bradará do fundo do abismo aquela palavra da prece de Renan: "Ó abismo! tu és o deus único!''
Aí fica um desconcerto acabando em desconsolo, — tudo para anotar pouco mais que nada. Posso dizer com D. Francisco Manuel: "Eu de meu natural sou miúdo e prolixo; o estar só e a melancolia, que de si é cuidadoso..." Aí deixo uma página feita de duas, ambas contrárias e filhas da mesma alma de sexagenário desenganado e guloso. Ao cabo, nem tão guloso nem tão desenganado. Conversações do papel e para o papel.
26 de maio
Aqui ficam os sinais do sujeito mordido pela viúva Noronha. Vinte e oito anos, solteiro, advogado do Banco do Sul, donde lhe vieram as relações com o gerente Aguiar; boa feição, boas maneiras, acaso tímido. É filho de um antigo lavrador do Norte, que reside agora no Recife. Dizem que tem muito talento e grande futuro. Chama-se Osório.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. Rio de Janeiro: Garnier, 1908.