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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Eu só, eu só ; respondi-lhe ancioso: eu só, que serei o teu Adão, porque tu vas ser a minha Eva.

A corista deu um muxoxo, fez um momo, e fechou os olhos.

— Vive ! vive!... é necessario qui vivas!...

— Para que?... tornou-me ella.

— Para não se acabar o mundo, minha filha; para arranjarmos um artigo additivo á humanidade, que está em risco de se extinguir de todo. Olha, minha corista, o destino do globo terráqueo está nas nossas mãos.

— Ora!... nem ao menos eu acharia com quem cantar um coro...

— Cantaremos um duetto, menina!

— Não... não... de que me serviria viver ?... que poderia eu ser ainda ?...

— Minha mulher, pequena!

— Tua mulher ?... ora essa!... se eu fosse agora tua mulher... como tu és o unico homem no mundo, nem ao menos eu poderia pregar-te um mono!

E inclinando a cabeça... exhalou um suspiro, que me pareceu o ultimo.

XIX.

Abracei-me desesparadamente com a corista : chamei-a pelo seu nome, ajuntando a este todos os epithetos ternos, amorosos e poéticos, de que se usa nas comedias ; beijei-a dez, cem, mil vezes, beijei-a tanto, e tanto, que por fim de contas a corista abre de novo os olhos, sorri... suspira... solta uma risadi-nha magana, e... levantando-se de repente, escapa dos meus braços, e deita a correr pelo salão fora.

Estava visfoTque eu devia correr atraz d'ella: reuno todas as minhas forças, dou um arranco, e...

Acho-me no chão gemendo com uma horrível dôr nas costellas.

Reconheci que acabava de sahir do dominio de um sonho tão longo como penoso, que me fizera cahir da cama abaixo no momento em que ia correr atraz da corista.

E apezar da dôr que sinto nas costellas, dou graças a Deos ; porque hoje é o dia 13 de Junho, e não ha de acabar-se o mundo.

O MARTINHO.

O ROMANCE DE UMA VELHA

I.

D. Violante é uma respeitavel senhora, veneranda Epaminondas do sexo feminino, que a tal ponto leva o seu amor á verdade que nem ao menos encobre que já completou sessenta e um annos de idade. É uma mulher prodígio que não soffre de ataques nervosos quando sòa a seus ouvidos o nome — velha.

Tem havido no mundo velhinhas capazes de abrasar corações, e até mesmo cidades ; por uma velha chamada Helena foi abrasada Troya, e Ninon de Lenclos ainda aos oitenta annos de idade inspirou ardente paixão a um mocetão.

Mas as Helenas e as Ninons são raridades, e D. Violante também o é, mas de outro genero. D. Violante aos vinte annos, isto é, na flor da sua mocidade, era uma mumia; aos sessenta e um transformou-se no mais feio bicho : é horrivel!...

A vista d'esta declaração, é positivo que não ha um só homem bastante animoso para lembrar-se de pedir noticias de D. Violante, e para interessar-se por ella : pobre velha !... está condemnada á morte previa do geral esquecimento... talvez repitão já a respeito d'ella um epigrammatico parce sepultis !

Está morta... não ha duvida.

Entretanto essa respeitável senhora, apezar de ser feia como uma fúria, herdou ha alguns mezes uma fortunasinha de trezentos contos de reis !

Surrexit... resuscitou a defunta.

Quantos corações apaixonados não ardem já em desejos de rolar aos pés da boa velha, a ver se ella os levanta carinhosa e os embrulha no papelorio dos trezentos contos !...

Um estudante de dezoite annos, um poeta que nunca poude aprender as quatro operações d'arithmetica, e um artista que sonha com a gloria, estão jurando que nunca se lembrarião de bater palmas na escada da casa de D. Violante.

São tres anachronismos que não podem representar a epocha actual : uma cabeça de estudante, uma cabeça de poeta, uma cabeça de artista fazem tres cabeças que sommadas apresentão em resultado uma grande cabeça cheia de vento e igual a zero.

Trezentos contos de reis!... trinta e seis contos de renda annual cahindo na palma da mão sem usura e sem trabalho !... um homem sentado na sua poltrona e no mais doce farniente, fumando o seu coronel — porque hoje em dia já se fumão coroneis, e o dinheiro a chover-lhe em cima!... trezentos contos de reis! isto é, boa cama e boa mesa, amigos a fartar, amantes a escolher, um coupé, cavallos de raça, theatros, bailes, uma excellencia de facto, formosura de direito, sabedoria de improviso, nobreza de encommenda... oh ! eis ahi uma realidade sublime!

Vale bem a pena carregar com uma velha furia por trezentos contos de reis !

Mentira ! ninguém pôde ser furia tendo de seu trezentos contos de reis.

D. Violante é um anjo.

Vamos fazer uma visita a essa interessante senhora... contemplemol-a de perto... ouçamos a sua voz, que forçosamente' deve ter a suavidade e a harmonia do tinir do ouro.

Vamos.

(continua...)

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