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#Romances#Literatura Brasileira

Ubirajara

Por José de Alencar (1874)

Essas eram as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando queriam, mas não recebiam a proteção de um guerreiro, nem podiam jamais ser mães da prole.

Os filhos, concebidos no próprio seio, só tinham por mãe a esposa, que o guerreiro tomou por companheira de sua existência e raiz de sua geração.

O rito da hospitalidade, entre os filhos da floresta, manda que se dê ao estrangeiro amigo tudo que deleita ao guerreiro.

Por isso vinham as moças (52) oferecer a Jurandir sua beleza, para que ele escolhesse entre elas uma companheira, que partilhasse sua rede na cabana hospedeira.

Todas se tinham enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos olhos de Jurandir; pois não havia para elas maior glória do que a de merecer o amor do estrangeiro.

Umas traziam as tranças urdidas com penas vistosas dos pássaros de sua predileção; outras haviam perfumado da essência do sassafrás os cabelos soltos, que derramavam sua fragrância ao sopro da brisa.

Chegando diante do estrangeiro, começaram uma dança amorosa para mostrar a graça do seu corpo. Aquelas que tinham a voz doce cantavam em louvor de Jurandir.

Araci fora buscar seu balaio de palha vermelha, e sentara-se no terreiro, junto à porta da cabana. Seus dedos ágeis enfiavam as sementes de jequiriti, de que fazia um ramal para seu colo gentil.

Enquanto compunha o colar, a virgem percebia que os olhos de Jurandir abandonavam os encantos das mulheres e buscavam seu rosto.

Mas ela voltava-se para a floresta; com o trinado de seus lábios chamava o crajuá, que voava no olho da palmeira. O passarinho, iludido, vinha, cuidando ouvir o canto da companheira.

Jurandir apartou as mulheres e disse:

— As moças tocantins são formosas; qualquer delas alegraria o sono do estrangeiro. Mas Jurandir não veio à cabana de Itaquê para gozar do amor de uma noite; ele velo buscar a esposa que há de acompanhá-lo até à morte, e a virgem que escolheu para mãe de seus filhos.

Quando Araci ouviu estas palavras cobriu-se de sorrisos, como o guajeru se cobre de suas flores alvas e perfumadas, com os orvalhos da manhã. Jurandir voltou-se então para a virgem caçadora.

— Estrela do dia, Araci, conduze-me à presença de Itaquê. É tempo que ele saiba o segredo do estrangeiro.

— Os sonhos disseram a Araci, duas noites seguidas, que o jovem caçador chegaria à cabana de Itaquê; ela te esperou. Quando meus olhos te viram sentado entre os moacaras, logo conheceram que tu vinhas buscar a esposa.

O estrangeiro respondeu:

— Jurandir chegou à taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o grande arco de sua nação. Mas a cabana do chefe estava deserta; e sua rede não lhe guardou o sono tranqüilo do guerreiro. Ele ouviu tua voz que o chamava, virgem tocantim, e ergueu-se; tua luz o guiou, filha do sol, e o trouxe à tua presença.


SERVO DO AMOR


Jurandir, conduzido pela virgem, caminhou ao encontro de Itaquê e disse:

— Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veio à tua cabana para receber a hospitalidade; veio para servir ao pai de Araci, a formosa virgem, a quem escolheu para esposa. Permite que ele a mereça por sua constância no trabalho, e que a dispute aos outros guerreiros pela força de seu braço.

Itaquê respondeu:

— Araci é a filha de minha velhice. A velhice é a idade da prudência e da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma esposa como Araci terá a glória de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê não pode desejar para seu hóspede maior alegria.

Desde esse momento, Jurandir não foi mais estrangeiro na taba dos tocantins. Pertencia à oca de Itaquê, e devia, como servo do amor, trabalhar para o pai de sua noiva.

Os guerreiros, cativos da beleza de Araci, conheceram que tinham de combater um adversário formidável; mas seu amor cresceu com o receio de perder a filha de Itaquê.

Jurandir tomou suas armas e desci ao rio. Era a hora em que o jacaré bóia em cima das águas como o tronco morto; e a jaçanã se balança no seio do nenúfar.

O manati erguia a tromba para pastar a relva na margem do rio. Ouvindo o rumor das folhas, mergulhou na corrente, mas já levava o arpéu do pescador, cravado no lombo.

Jurandir não esperou que o peixe ferido desenrolasse toda a linha. Puxou-o para terra; e levou-o ainda vivo à cabana de Itaquê, onde três guerreiros custaram a deitá-lo no jirau.

As mulheres cortaram as postas de carne e os guerreiros cavaram a terra para fazer as grelhas do biaribi.

Jurandir partiu de novo e entrou na floresta. Ao longe reboavam os gritos dos caçadores que perseguiam a fera.

Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombara dos caçadores e vinha rompendo a mata como a torrente do Xingu.

As árvores que seu peito encontrava caíam lascadas.

(continua...)

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