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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

Luís Galvão comia com boa disposição e, de vez em quando, replicava ao olhar inquieto da mulher com um sorriso e um gesto de carinhoso motejo, o que chamava aos lábios da elegante senhora uma fugaz enfloração, logo apagada. Quanto a Linda e Afonso, apesar da hora, só para fazer companhia ao pai debicavam com o apetite, pronto sempre, da juventude. 

  Nenhum destes fez reparo no desastre acontecido com Brás, naturalmente porque semelhantes desaguisados eram tão freqüentes, que já se contava com eles. E então buscavam todos modos de disfarçar, não só para não contrariar ainda mais D. 

Ermelinda, como para evitar as represálias de que servia-se o pequeno contra qualquer ralho ou motejo. 

  Dessa vez ficou na garfada à perna da Rosa, que lá se foi coxeando para a camarinha, examinar o arranhão. Entanto o Brás, rachando a meio um pão e metendo em cada bolso uma banda, levantava-se da mesa para ganhar o quintal pela porta da cozinha. 

  Repetindo Luís Galvão o seu amoroso remoque à inquietação da mulher, esta não se conteve, que não lhe replicasse. 

- Tem razão de zombar, Luís! Devo parecer-lhe uma criança; e eu mesma não cesso de acusar-me por esta tolice; mas nem por isso consigo livrar-me dos receios que me assaltam. 

- Disposição em que você está, Ermelinda. Que perigo pode haver em um passeio que estou a fazer constantemente, e até mais longe e com maior demora?  

- Tudo isto me tenho eu dito cem vezes desde ontem, e não sossego. Nunca fui sujeita a cismas e caprichos, você bem o sabe; entretanto sinto hoje um desassossego, um aperto de coração. 

- É nervoso. 

- Se não houvesse uma causa real para isso, podia ser; mas há. Essas esperas, que andam deitando por aí, das quais ainda ontem falou o administrador... 

- E por que hão de ser elas para mim? Não tenho inimigos, e a ninguém faço mal para que se dêem ao trabalho de livrarem-se de mim. 

- Papai é tão estimado! disse Linda; e a voz doce como um favo de mel arpejou a nota moviosa da ternura filial.  

- Quem se atreveria?... 

  O altivo desafio, esboçado nestas palavras, partiu dos lábios de Afonso que alçou a fronte já naturalmente erguida, com um assomo bizarro. 

- São os bons, meus filhos, que estão mais sujeitos ao ódio dos maus, os quais se conhecem e ajudam entre si. 

- Lembre-se, Ermelinda, que depois das esperas tenho andado por esses caminhos. No dia em que o administrador veio contar-lhe a tal novidade e assustá-la à toa, eu fui a  Piracicaba, e duas vezes passei na Ave-Maria. Disse o Pereira depois, que vira dois vultos no mato; entretanto nada me aconteceu. Se havia espera, não era decerto para mim. 

  Pareceu D. Ermelinda ceder à força desse argumento e ao tom persuasivo do marido; mas o pressentimento a pungia, e o coração perscrutava objeções para resistir à razão. 

- E esse homem, que foi ontem visto pelos pretos, atravessando a fazenda? 

Dizem que a desgraça o acompanha, pois ele deixa, por onde passa, um rasto de sangue. 

Por isso deram-lhe o nome de fera! 

- Outra prova de que são imaginários os seus receios, Ermelinda. Jão Bugre ou Jão, como eu o chamava em menino, a exemplo de outros, foi criado em nossa casa; era afilhado de meu pai e até chegou a servir-me de camarada. Depois tornou-se um perverso; porém lembra-se dos benefícios que recebeu de nossa família, e, embora se mostrasse altaneiro comigo, acredito que me respeita. 

- Essa gente não é capaz de gratidão, Luís; ao contrário, o benefício os humilha, e eles revoltam-se contra o que chama uma injustiça do mundo. 

  O Bugre é uma fera, na verdade; contam-se dele as maiores atrocidades; porém esse homem de más entranhas tem um resto do consciência e probiedade. Não há exemplo de haver atirado a alguém por trás do pau, ou de emboscada: ataca sempre de frente, expondo-se ao perigo. O bacamarte só lhe serve para defender-se, quando o perseguem. Também nunca ouvi falar de roubo ou furto que ele cometesse, e isso apesar de viver ele pelos matos, constantemente acossado.  

- E ainda não foi preso um criminoso de tantas mortes? 

(continua...)

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