Por José de Alencar (1872)
- Se não possuísse esse lindo isabel, havia de achá-lo magnífico!
- Ora, Mrs. Trowshy! Não é por isso. Acho “Edgard” esplêndido, incomparável: tudo que a senhora quiser; mas não gosto desta frieza; um cavalo que não sabe brincar, sempre grave e empertigado como um ministro em audiência.
- Dobrando o segundo lanço da estrada em ziguezague, viu Ricardo que a moça tomava a mesma direção; naturalmente ia como ele até a Floresta, ou mais acima ao pico da montanha que tem a forma e o nome de Bico do Papagaio.
Essa coincidência incomodou o jovem advogado. Por quê? Se tivesse de explicar, naturalmente não lhe acudiria a razão e por uma circunstância muito simples, porque não existia. Com efeito não fora um motivo distinto, suscetível de apreciação, o que atuara em seu espírito; porém unicamente certas repugnâncias que às vezes despertam em nosso espírito a respeito de um fato. É uma espécie de antipatia.
A possibilidade de sucessivos encontros, a facilidade de se verem de longe, subindo os lanços da estrada em ziguezague e, finalmente, essa comunidade de passeio, embora fortuita, todas essas circunstâncias confusas, indistintas, calaram no ânimo de Ricardo uma súbita contrariedade. Refletiu que a Floresta era distante, e, a não ir de corrida, chegaria tarde para o almoço; ora, passear, para ele, não era correr e sim contemplar.
O resultado dessas reflexões foi apear-se o advogado e puxar o cavalo para uma vereda que vai ter ao cimo da cascata. Aí oculto pela folhagem ouviu o tropel dos animais que passavam. Quando presumiu que já estivessem bem longe, tornou a cavalgar, e descendo o caminho da Cascatinha, foi acabar o seu passeio interrompido na bela estrada que vai ter ao Jardim Botânico.
Fábio esperava-o para o almoço, deitado em uma esteira no terreiro da casinha, enquanto D. Joaquina andava apanhando umas goiabas maduras para a merenda. O praticante de advocacia tinha brilhado naquele dia: empregando a manhã na caça de passarinhos, trouxera uma dúzia de rolas, que chiavam no espeto, trescalando perfumes estranhos naqueles lares acostumados às refeições frugais.
O outro encontro fora no mesmo lugar da primeira cena.
Subia Ricardo a pé, e tomara involuntariamente, pela força do hábito, o caminho que seguira da vez passada. Chegando ao ponto onde estivera desenhando sobre a grama, procurou o arbusto, que ainda estava coberto dos seus botões de ouro; apenas duas flores desabrochadas brilhavam sobre o ramo verde-escuro.
Notou o moço que junto à planta estava o chão pisado por casco de cavalo; mas não deu grande atenção a essa circunstância, tão vulgar em um sítio onde freqüentemente andam animais soltos.
Abriu o álbum na página em que desenhara a cena do primeiro encontro da moça; e cotejando-a com o sítio, corrigiu alguns traços do arvoredo, não porque lhes prejudicassem a beleza do quadro, mas por um capricho de artista. A paisagem era uma cópia e não uma fantasia; queria que fosse o mais exata possível.
Tinha concluído esse trabalho e estava examinando os botões de ouro e as flores abertas, quando repercutiu o tropel de uma cavalgata. Eram com efeito diversas pessoas, senhoras e homens, que iam de passeio, rindo e conversando. Fitando os olhos no caminho, Ricardo viu a Guida, que também o percebera. Ou fosse espanto de “Edgard”, ou descuido da gentil amazona no governo das rédeas, ou qualquer outra circunstância, o lindo isabel ao passar em frente ao moço tinha-se desviado do caminho, penetrando no mato, com direção ao arbusto.
Descobrindo porém o moço, Guida com sua habitual destreza corrigiu o desvio do cavalo, e fustigando-o com um movimento de contrariedade, ganhou a frente da cavalgata, que desapareceu num turbilhão de poeira.
- E a flor, Guida? perguntou uma das moças.
- Não achei!
Ricardo compreendeu então o movimento da elegante amazona e a circunstância que a princípio notara de rastos de cavalo junto ao arbusto; a ferradura inglesa fina e um tanto oval estava denunciando a pata aristocrática de “Edgard”. Pensou que a filha do milionário também gostava da linda flor agreste. E quem não se agradaria daqueles aljôfares graciosos? Para ela sobretudo deviam ser de um encanto especial; não tinham a cor do ouro, essa cor sedutora que a natureza destinou para o sol e o dinheiro, os dois clarões que deslumbram, um a vista, outro a alma?
Naturalmente a moça já conhecia a flor antes do primeiro encontro; passando procurava-a com os olhos, quando o descobriu, a ele Ricardo, na posição ridícula de um namorado de novela antiga, beijando o cravo que lhe atirou da janela a dama dos seus pensamentos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.