Por José de Alencar (1875)
Através do rendilhado da folhagem, como por entre os bambolins de fina escócia de uma recêmera, o sertanejo recostado no punho da rede, que oscilava ao frouxo balanço, descortinava toda a devesa que se estendia das encostas da serra pelos tabuleiros, até onde a vista alcançava.
A meia distância ficavam as casas da fazenda, que êle via de alto como um mapa desenhado na superfície da terra.
Neste momento o pátio interior se iluminava de muitos fachos. Ao clarão que fazia, Arnaldo reclinado para ver melhor, avistou gente a mover-se e divisou o airoso vulto de D. Flor.
Transportava-se o capitão-mór à capela com sua família para assistir ao têrço, e todo o povo da fazenda concorria à devoção que nessa noite de chegada tinha uma intenção especial e solenidade maior que de costume.
Cessaram os repiques do sino; o sertanejo adivinhando que estavam na reza ajoelhou também num ramo da árvore, e com sincero fervor acompanhou de longe no seu nicho agreste a oração que lá se estava elevando ao Senhor pela boa volta e feliz chegada dos donos da Oiticica. Começou a ladainha cantada.
O côro religioso, derramando-se pela floresta, impregnava-se dos ruídos e murmúrios da ramagem aflada pela brisa, o que lhe dava um timbre grave e sombroso.
Ainda que não se eximisse de todo ao místico sentimento de que se repassava essa melopéia cristã no seio da profunda solidão, o sentido do mancebo estava especialmente concentrado no esfôrço de abstrair do côro uma voz, para escutá-la, a ela somente.
Ou porque em verdade sua residência errante e aventureira no deserto lhe houvesse exercido as faculdades ao mais alto grau, dando-lhe admirável fôrça de percepção; ou porque se deixasse enlevar de uma grata ilusão, o certo é que Arnaldo distinguia naquele concêrto uníssono uma melodia radiante, de uma límpida suavidade, que entretecia o canto sonoro como fio de ouro urdido em tela de sêda.
De princípio o ouvido do sertanejo experimentou a mesma sensação dos olhos quando os fere a luz: houve uma fascinação que não lhe deixava discernir as vozes, mas logo após começou a destacar o timbre mavioso de D. Flor, com tamanho vigor que já não escutava êle senão êsse hino celeste, surdo para toda outra cantoria.
Terminou o têrço; sumiu-se o clarão dos fachos; naturalmente a família passava à mesa da ceia. Pouco depois apagaram-se os fogos e apenas ficou por algum tempo a lâmpada da casa de jantar, que era costume deixar até de todo concluir-se a tarefa diária.
Enquanto broxoleou ao longe, no seio das trevas, a luz solitária, Arnaldo esteve embevecido a contemplá-la, como se a trêmula irradiação lhe desenhasse formoso painel.
Era assim todas as noites em que malhava alí, na sua pousada, quando as correrias da vida errática do sertanejo não o levavam pelo mundo sem destino.
Essa luminária, êle a amava como sua estrêla. As almas que vivem no campo, ao relento, sob um firmamento cravejado das mais brilhantes constelações, todas têm um astro de sua particular devoção, um amigo no céu com quem se entretêm e conversam nos serões das noites ermas.
Para Arnaldo todas essas meigas virgens do céu lhe eram irmãs; conhecia-as pela cintilação, como se conhece pelos olhos a menina faceira que se embuçou na sua mantilha azul. A cada uma saudava pelo nome, não o que inventaram os sábios, e sim o que lhe dera sua fantasia de filho do deserto.
Mas esquecia-as o ingrato, quando brilhava a outra, a estrêla da terra, porque esta lhe falava de D. Flor e seus raios eram como os olhos castos da formosa donzela que vinham misteriosamente, no segrêdo da noite, afagar-lhe os seios d’alma.
Afinal também apagou-se a luz.
Recostara-se o sertanejo outra vez à rede, quando a ramagem cascalhou perto e os galhos do jacarandá estremeceram abalados por alguma forte percussão.
Arnaldo pôs a cabeça fora da rede, e perscrutando a folhagem descobriu duas tochas acesas no meio das trevas, mas de uma luz baça e sulfúrea.
Os mais intrépidos caçadores do sertão, curtidos para todo o perigo, não se podem eximir de um súbito arrepio, quando lhes chamejam no escuro da mata êsses olhos vidrentos cujos lumes gáseos fervilham dentro n’alma.
Há um quer que seja de satânico na pupila da onça, como na de toda a raça felina; e é por essa afinidade que nas antigas lendas o príncipe das trevas aparece mais frequentemente sob a figura de um gato negro, miniatura do tigre.
Daí provém talvez o supersticioso terror que inspira a fosforescência dêsses olhos ao mais valente sertanejo, o temor ao que jamais pestanejou em face da morte, e nem se abala com o medonho rugido da fera.
Não produziram, porém, igual efeito em Arnaldo as duas tochas que brilhavam entre o negrume da noite, alguns pés abaixo do lugar onde se achava:
— Bem aparecido, camarada, disse o mancebo a gracejar.
A onça espasmou a cauda rebatendo as ancas, e dentre as belfas túmidas escapou-lhe um rosnar manso e crebro como rir de contentamento.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.