Por José de Alencar (1857)
Em religião o mesmo sucedia; e um dos maiores desgostos que ela sentia na sua existência, era não se ver cercada de todo esse aparato do culto, que D. Antônio, como os homens de uma fé robusta e de um espírito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.
Apesar desta diferença de caracteres, D. Antônio de Mariz, ou por concessões ou por serenidade, vivia em perfeita harmonia com sua mulher; procurava satisfazê-la em tudo, e quando não era possível, exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia imediatamente que era escusado insistir.
Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fora em vencer a repugnância que D. Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objeto, deixou sua mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus sentimentos.
— Faláveis a D. Diogo com um ar tão severo! disse D. Lauriana descendo os degraus da porta, e vindo ao encontro de seu marido.
— Dava-lhe uma ordem, e um castigo que ele mereceu, respondeu o fidalgo.
— Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, Sr. D. Antônio!
— E vós com extrema benevolência, D. Lauriana. Assim, como não quero que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua companhia.
— Jesus! Que dizeis, Sr. D. Antônio?
— D. Diogo partirá nestes dias para a cidade do Salvador, onde vai viver como fidalgo, servindo à causa da religião e não perdendo o tempo em extravagâncias.
— Vós não fareis isto, Sr. Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso filho da casa paterna!
— Quem vos fala em desterro, senhora? Quereis que D. Diogo passe toda a sua vida agarrado ao vosso avental e à vossa roca?
— Mas, senhor; eu sou mãe, e não posso viver assim longe de meu filho, cheia de inquietações pela sua sorte.
— Entretanto, assim há de ser, porque assim o decidi.
— Sois cruel, senhor.
— Sou justo apenas.
Foi nesta ocasião que se ouviu o tropel de animais, e que Isabel distinguiu a banda de cavaleiros que se aproximava da casa.
— Oh! exclamou D. Antônio de Mariz; eis Álvaro de Sá.
O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apearam-se, subiram a ladeira que conduzia à esplanada, e aproximaram-se do cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejaram respeitosamente.
O velho fidalgo estendeu a mão a Álvaro de Sá, e respondeu à saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto a D. Lauriana, a inclinação da cabeça foi tão imperceptível, que seus olhos nem se abaixaram sobre o rosto dos aventureiros.
Depois de trocada essa saudação, o fidalgo fez um sinal a Álvaro, e os dois se separaram, e foram conversar a um canto do terreiro, sentados sobre dois grossos troncos de árvore lavrados toscamente, que serviam de bancos.
D. Antônio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde se haviam perdido todas as esperanças de uma restauração, que só teve lugar quarenta anos depois com a aclamação do duque de Bragança.
O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi misturar-se com os seus companheiros que saiam ao seu encontro.
Aí foram recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos chistosos, em que tomaram parte; depois, uns, curiosos de novidades, outros, ávidos de contar o que viram, começaram a falar ao mesmo tempo, de modo que ninguém se entendia.
Nesse instante, as duas moças apareceram na porta: Isabel parou trêmula e confusa; Cecília descendo ligeiramente os degraus, correu para sua mãe.
Enquanto ela atravessava o espaço que a separava de D. Lauriana, Álvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéu na mão foi inclinar-se corando diante da moça.
— Eis-vos de volta, Sr. Álvaro! disse Cecília com um certo repente, para disfarçar o enleio que também sentia; depressa tornastes!
— Menos do que desejava, respondeu o moço balbuciando; quando o pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se.
Cecília corou e fugiu para junto de sua mãe.
Durante que esta breve cena se passava no meio da esplanada, três olhares bem diferentes a acompanhavam, e partindo de pontos diversos cruzavam-se sobre essas duas cabeças que brilhavam de beleza e mocidade.
D. Antônio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquele lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto venerável.
Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros, cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; enquanto as narinas dilatadas aspiravam o ar com a delícia da fera que fareja a vítima.
Isabel, a pobre menina, fitava sobre Álvaro os seus grandes olhos negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se naquele raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.