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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— Mas este coração aqui, assim todo crivado, como almofada de renda? Aqui há tafularia, senhora. 

— O coração... Mas é para significar as tribulações que a gente passa antes de ganhar o céu. Estes são os espinhos... 

— Espinhos não, são setas, e bem setas. 

— Vem dar na mesma. 

— Eu cá, não sei o que tenho; mas era capaz de jurar que isto não passa de bruxaria. 

— Qual, senhora! Pois eu não vi o Ivo quando estava copiando do próprio que tem nos seus divinos braços a Virgem Santíssima dos Carmelitas? 

A Rosalina tivera essa idéia, quando pela primeira vez deu com o painel, não podendo compreender que o filho tirasse da fantasia, sem auxílio de cópia, o lindo vulto do Menino Jesus. 

Não duvidou pois dar como visto, o que fora apenas imaginado. 

— Que é pintura de devoção logo se vê, observou a velha Romana. Se não fosse, não punha o menino assim nuzinho, sem malícia nenhuma, o inocente! Nessas pinturas desavergonhadas não vêem como eles escondem as patifarias, que nem parecem? 

Esta razão era sem réplica; à vista dela ficou assentado que o painel representava o Menino Jesus; e a Sr.ª Romana o colocou sobre uma toalha no trumó, mandando logo recado ao seu capelão e confessor, um frade capucho, para vir benzê-lo. 

Foi aí que o viu o Ivo, ao entrar em casa da Romana, na alheta da Rosalina, que o puxava pela aba do gibão com receio de que lhe escapasse. 

E não era sem razão; pois o rapaz, ao transpor a soleira, estava como que cheio de espavento, e quisera achar-se a léguas daí. 

 

 

DO ALVOROÇO QUE PRODUZIU UM GRILO NA NOITE 

DA NOVENA 

 

Havia novena essa noite. 

Já as devotas começavam a chegar; e lá estava o tabelião com a família. 

Foi o Ivo recebido com muitos agasalhos pela velha Romana e todo o mulherio, que estava em contemplação diante da pintura. Atarantou-se o rapaz, e não sabia como atar-se, quando felizmente deu o tirador da ladainha sinal para começar a novena. 

Colocou-se o rapaz de modo que pudesse espiar o rostinho de Marta, oculto sob o capuz da mantilha, que ela de propósito conservava sobre a cabeça para melhor recolher-se no seu pudor, como a corola da flor que cerra com o raio do sol. 

Bem vontade tinha a menina de lançar de esguelha e a furto uma olhadela para ver como rezava o rapaz; não se animando, vingava-se em contemplar o improvisado Menino Jesus, como se o quisesse comer com a vista. 

Notou a Sr.ª Romana que a neta várias vezes errara as palavras da reza; com o que teve algum desconsolo, pois seu maior desejo era fazer de Marta uma devota insigne, digna de receber a herança de seu oratório, de suas imagens, relíquias e todo o mais beatério. 

Terminada a novena, os velhos sentaram-se na calçada, sobre o tijolo, com exceção do tabelião e algum outro também qualificado, para quem vieram cadeiras de couro. Rolou a prática sobre as novas do reino trazidas pela última frota, e afinal, depois de tocar em outros vários temas, veio a cair na mudança da única matriz que possuía então a nascente cidade, da Igreja de São Sebastião do Castelo, onde a tinham colocado desde a primitiva fundação, para a Igreja de São José, de recente fábrica, e apenas acabada. 

Foi este para nossos dignos antepassados negócio da maior monta, ou como agora se diria, a “grande questão”. Não abalaria tanto os ânimos hoje em dia a mudança da corte para as cabeceiras do São Francisco, onde há muito devera estar, como naqueles tempos afonsinhos a mudança da sede paroquial da freguesia de São Sebastião do Rio de Janeiro. 

Se já existira imprensa, como a sua gíria moderna, que rajadas de eloqüência tribunícia não haviam de aparecer a propósito? E como andaria em bolandas a opinião pública, essa bonita peteca dos jornalistas? 

No estrado do oratório, corrida a cortina de crepe sobre o altar e as imagens, sentaram-se as devotas para a costumada prática. Bisbilhotou-se a vida do próximo; contaram-se histórias de almas do outro mundo ou casos de bruxos e lobisomens. Tudo isto, a um tempo, em contínua tagarelice, cada uma escutando e palrando do mesmo passo. 

E não se fala de uns cochichos que se perdiam no rumor da prática animada. Esses eram de lábios frescos e rosados, donde se escapavam a medo, envoltos em um suspiro ou na reticência do pudor. 

Quanto aos rapazes, saltavam no quintal, ao clarão da fogueira, impacientes pela hora da ceia. 

— Querem ver como eu tiro já as velhas do estrado para a mesa? Esperem vocês, disse Ivo aos companheiros. 

(continua...)

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