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#Dramas#Literatura Brasileira

Mãe

Por José de Alencar (1860)

JOANA - Ainda não, nhonhô! Não é de quinhentos mil-réis que precisa?

JORGE - Onde irei eu achá-los?

JOANA - Mas... sua mulata assim mesmo velha, ainda vale mais do que isso.

JORGE - Que queres dizer, Joana?

JOANA - Nhonhô não me deu este papel?... Eu não careço dele!

JORGE - A tua carta!... Estás louca?

JOANA - Ouça, nhonhô...

JORGE - Não quero ouvir nada.

JOANA - Mas nhonhô prometeu dar esse dinheiro.

JORGE - Prometi.

JOANA - Então! Há de faltar à sua palavra... E falar em morrer...

JORGE - Queres que para evitar um mal, cometa um crime?... Que roube a liberdade que te dei?...

JOANA - Nhonhô não rouba nada!... Eu é que não quero... Não pedi!...

JORGE - Que importa?... O que dei não me pertence.

JOANA - Pois eu não aceito! Veja...

JORGE - Que vais fazer?

JOANA - Nhonhô não há de obrigar... Não sou forra!... Não quero ser!... Não quero!... Sou escrava de meu senhor!... E ele não há de padecer necessidades!... Tinha que ver agora uma mulher em casa sem fazer nada, sem prestar para coisa alguma... E meu nhonhô triste e agoniado.

JORGE - Não recebo o teu sacrifício. É escusado. Depois, de que me serviria isto?

JOANA - Mas vem cá, nhonhô... Vm. não disse esta manhã que há muito tempo me queria forrar?

JORGE - E disse a verdade.

JOANA - Quem duvida?... Mas não forrou porque tinha pedido um dinheiro emprestado com... Não sei como se chama.

JORGE - Com hipoteca?

JOANA - Isso mesmo!... Pois que custa nhonhô pedir outra vez esse dinheiro emprestado?

JORGE - Tu já não és minha escrava.

JOANA - O que sou eu então!... Nhonhô não me quer mais... Não presto para nada... Paciência!

JORGE - Estás forra.

JOANA - Mas eu rasguei o papel.

JORGE - É indiferente. Eu o escrevi.

JOANA - Que tinha que fizesse isto? Amanhã, Sr. Dr. Lima trazia o dinheiro, e estava tudo direito.

JORGE - Vê quem está batendo. Deve ser o Peixoto.

JOANA - Mas então, nhonhô?

JORGE - Abre a porta.

 

CENA IV

Os mesmos e ELISA


JOANA - Iaiá D. Elisa!

ELISA - Sr. Jorge. (JOANA afasta-se.)

JORGE - Nada obtive ainda, Elisa.

ELISA - Meu Deus!... Ele já me perguntou pelo vidro!... Eu lhe respondi... Nem sei o que lhe respondi!... São mais de três horas...

JORGE - Não desespere, Elisa! Ainda temos tempo. Vá fazer-lhe companhia. Não o deixe.

ELISA - Oh! se as minhas lágrimas o salvassem!

JORGE - Em último caso, se nada conseguir, irei ter com ele... Não o deixarei realizar o projeto que medita.

ELISA - Mas ficará desonrado... Acusado de falsificador, será demitido... Cuida que resistirá?

JORGE - Procuremos salvar-lhe a honra... Se não for possível, de duas desgraças a menor... a que ainda pode ser reparada!

ELISA - Conto com o senhor!... Não nos abandone, Sr. Jorge. 

JORGE - Vá descansada! Talvez mais cedo do que pensa eu possa levar-lhe uma boa notícia!... Se houver alguma coisa de novo, venha me dizer!.

JOANA - Que tem iaiá que está tão triste?

ELISA - Logo te direi, Joana.

JOANA - Sua mulata de nada serve, mas...

ELISA - Sei quanto és boa! Porém não me podes valer.

JOANA - Quem sabe, iaiá?

 

CENA V

JORGE e JOANA


JORGE - Joana!... Aceito o sacrifício que me fazes!.

JOANA - Qual sacrifício!... Isso é o que nhonhô devia ter feito logo. Já estava livre de cuidados.

JORGE - Não o aceitaria nunca se não fosse para o fim que é... Para salvar a vida de um homem... de um pai!

JOANA - Do Sr. Gomes?

JORGE - Sim, do pai de Elisa.

JOANA - Por isso é que iaiá está com os olhos vermelhos de chorar!... Pois nhonhô sabia e recusava!...

JORGE - Nem imaginas quanto me custa!... Há muito tempo não tenho uma tão grande satisfação como a que senti hoje dando-te a liberdade, Joana! Nunca o dinheiro ganho pelo trabalho honesto me inspirou tão nobre e tão justo orgulho!... E destruir agora a minha obra!... Ah! Elisa não sabe que fel me fazer tragar as suas lágrimas!

JOANA - Está bom, nhonhô, não esteja triste!'... Tudo vai se arranjar... daqui a uma semana, se tanto, que festa não há de haver nesta casa!

JORGE - Se eu já tiver restituído o que hoje confias de mim com tanta generosidade. Antes disso juro que não gastarei senão o que for absolutamente necessário para viver.

JOANA - E por que agora nhonhô há de se privar do que precisar?

JORGE - O devedor que assim não procede, rouba ao seu credor. E se houve dívida sagrada no mundo é esta que vou contrair contigo.

JOANA - Não, vejo nada de maior.

JORGE - Aumentas o sacrifício, diminuindo-lhe o valor.

(continua...)

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