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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Antônio – Roubaram e nem ao menos me deram o que ela valia! Velhacos... Os sujeitinhos hoje estão espertos!

Meneses – Pobre homem!

Antônio – Pobre, não! (Bate no bolso) Veja como tine. (Rindo) A mulher está doente, não trabalha; eu durmo todo o dia, não vou mais à loja; porém Margarida tinha uma cruz de ouro com que rezava. Fui eu, e furtei de noite a cruz, como o outro furtou minha filha, e passei-a nos cobres. Cá está o dinheiro; chega para beber dois dias. Estou rico! Viva a alegria! Olá! senhor moço! Ande com isso!... Meia garrafa!...

Helena – (à Carolina) – Vamos para outra sala; não podes ficar aqui. (Erguem-se)

Ribeiro (a José) – Faz já sair este bêbado!

Araújo (a Luís) – Tenho medo do que vai se passar.

Antônio (para Carolina) – Olé! Que peixão! Dê cá este abraço... menina!

Carolina – Meu pai!...(Esconde o rosto)

Antônio – Pai!... Há muito tempo que não ouço esta palavra. Mas quem és tu? Deixa-me ver o teu rosto. Tu pareces bonita. Serás como Carolina? Mas... se não me engano... Sim... Sim... Tu és!

Carolina – Não!

Antônio – Tu és minha filha!

Carolina – É falso!

Antônio – Não foste tu que me falaste há pouco?... aqui... Não me chamaste teu pai?... Carolina!

Carolina – Deixe-me!

Antônio – Vem! Tua mãe me pediu que te levasse.

Carolina – Minha mãe!...

Antônio – Sim, tua mãe... Margarida. Se soubesses... como ela tem chorado...

Minha pobre Margarida!

Carolina – Não sei quem é.

Antônio – Não sabes?

Carolina – Não!

Antônio – Tu não sabes?

Carolina – Meu Deus!

Antônio – Esqueceste até o nome de tua mãe?

Carolina – Esqueci tudo.

Antônio – Oh! tens razão! Tu não és minha filha. Nunca foste... (Precipita-se sobre ela e a obriga a ajoelhar-se. Ribeiro e Pinheiro protegem Carolina, enquanto Luís segura Antônio pelo braço)

Luís – Antônio!

Antônio – Solta-me, Luís!

Meneses – Não a ofenda! É sua filha!

Antônio – Não: já não é.

Meneses – Mas é ainda uma mulher. Deseja puni-la? Respeite essa vida que a levará de lição em lição até o último e terrível desengano. É preciso que um dia a sua própria consciência a acuse perante Deus, sem que possa achar defesa, nem mesmo na cólera severa, mas justa de um pai.

Araújo – Vamos; vamos, Luís.

Antônio – E ela... fica.

Araújo – Nem lhe responde!

Antônio – Pois sim, fica; se algum dia me encontrares no teu caminho, se o teu carro atirar-me lama à cara, se os teus cavalos me pisarem, não me olhes, não me reconheças. Vê o que tu és, que um miserável bêbado, que anda caindo pelas ruas, tem vergonha de passar por teu pai!

Luís – Espera, Antônio! Talvez ainda não esteja tudo perdido. Um último esforço! Abre os braços à tua filha!... Olha! Olha!... Não vês que ela chora?

Carolina – Foram as últimas lágrimas... já secaram!... se tivessem caído neste copo, eu beberia com elas à memória do meu passado.

ATO SEGUNDO (Sala em casa de Helena)

CENA PRIMEIRA (Luís, Araújo e Meneses)

Meneses – Podemos entrar. Nada de cerimônias.

Araújo – Talvez sejamos importunos.

Meneses – Não tenhas receio. Sente-se, Sr. Viana.

Araújo – E o tal Vieirinha?

Meneses– Que tem? (Na porta Helena!

Helena (dentro) – Já Vou, Sr. Meneses.

Meneses – Está no toilette naturalmente. Esperemos um instante.

Araújo – Não cuidei que se tratasse com tanto luxo! É uma bela casa.

Meneses – Como muitas famílias não a têm; mas assim deve ser quando os maridos roubam as suas mulheres, e os pais a seus filhos para alimentarem esses parasitas da sociedade.

Luís – Dizes bem; a culpa não é delas.

Meneses – Mas, Araújo, sinceramente te confesso que ainda não compreendi o teu empenho!

Araújo – Empenho de quê?

Meneses – De conhecer a Helena. Achas bonita?

Araújo – Bonita!... Uma mulher que tem os dentes e os cabelos na Rua do Ouvidor!

(continua...)

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