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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

E eles representam um trabalho incalculável. O Purus é uma das maiores dádivas entre tantas com que nos esmaga uma natureza escandalosamente perdulária.

Vejamo-lo, de relance.

Toda a hidráulica fluvial parece ter nascido entre os leitos do Garona e do Loire, tais e tantos os monumentos que ali levantou a engenharia francesa. Nunca o homem arremeteu com tamanha pertinácia o brilho com a brutalidade dos elementos. Os romanos transfigurando a Argélia e os holandêses construindo a Holanda, emparelham-se bem com os abnegados profissionais que durante um século, impassíveis ante sucessivos reveses, se devotaram à empresa exaustiva de paralisar torrentes, de atenuar inundações e de encadear avalanchas, na dupla

tentativa de facilitar a navegação e de proteger os territórios ribeirinhos.. E todo esse magnífico esforço em que se imortalizaram Deschamps, Dieulafoy e Belgrand, resuktou em grande parte inútil. Inútil ou contraproducente. Os primores da engenharia estragaram o Loire.

Os diques submersíveis ou insubmersíveis destinados a salvarem as povoações, os canais de socorro que se lhes anexavam, as margens artificiais ladeando em dezenas de quilômetros o leito menor das caudais, os enrocamentos antepostos às erosões, as barragens antepostas às correntezas — tinham em geral a duração efêmera dos seis meses da estiagem, tal a inconstância irreparável daquelas artérias.

Por fim engenharam-se estupendos reservatórios alcandorados nos Pireneus, escalonando-se por todos os pendores, para armazenar as inundações. E armazenavam catástrofes — rompendo-se-ljes os muros, de onde saltavam as ondas despenhadas varrendo povoados inteiros...

Mas ainda quando estas rupturas dos reservatórios compensadores não formassem os episódios mais dramáticos da história da engenharia, e eles pudessem erigir-se estáveis e sem riscos, nós, quaisquer que fossem os nossos esforços e os nossos dispêndios, jamais os construiríamos como no-los construiu o Purus.

Considere-se, para isto, este exemplo. Duponchel, para dar ao Neste - um pequeno rio com a despesa média de 25 metros cúbicos - um modelo constante, que lhe amortecesse as inundações, calculou um reservatório de 300.000.000.000 de litros e recuou ante o algarismo colossal.

Ora, o Neste é três vezes menor que o Iaco, que, entretanto, não se inclui entre os maiores afluentes do Purus.

Diante destes dados formidáveis põe-se de manifesto que a construção de reservatórios compensadores no grande rio seria o mesmo que fazer um mar; e conclui-se que os existentes, numerosíssimos, às suas margens, representam um capital inestimável e acima dos mais ousados orçamentos.

Precisamos ao menos conservá-lo. Aproveitemos uma lição velha de um século. O Mississipi, que no seu curso inferior retrata o traçado do Purus com a exação de um decalque, era, pelas mesmas causas, ainda mais inçado de empecilhos, tornando-o quase impenetrável e em muitos lugares de todo intransponível. Alguns dos seus tributários não estavam apenas trancados: desapareciam, literalmente, sob os abatises.

No entanto o grande rio, hoje transfigurado, desenha-se como um dos traços mais vivos da pertinácia norte-americana.

Lá está, porém, no seu vale, em um de seus afluentes, o Rio Vermelho, um caso desalentador. É um rio perdido. O yankee descobriu-o tarde demais. A desmedida tranqueira, the great raft, exatamente formada como as que estão formando-se no Purus, estira o labirinto de seus madeiros e das suas frondes mortas por 630 quilômetros - e lá está, indestrutível, depois de desafiar durante vinte e dois anos os maiores esforços para uma desobstrução impossível.

Estabelecida a proporção entre aquele rio minúsculo e o Purus, entre nós e os norte-americanos, aquilatam-se as dificuldades que nos aguardarão, se progredirem os obstáculos apontados, e cuja remoção atual, completando-se com a defesa, embora rudimentar, das margens mais ameaçadas pelas erosões, é ainda de relativa facilidade. Ao mesmo passo se atenuarão consideravelmente as "divagações" pre citadas, que constituem verdadeira anomalia num rio aparelhado de um perfil de estabilidade demonstrável até geometricamente, como vimos. De qualquer modo urge iniciar-se desde já modestíssimo, mais ininterrupto, passando de governo a governo, numa tentativa persistente e inquebrantável, que seja uma espécie de compromisso de honra com o futuro, um serviço organizado de melhoramentos, pequeno embora em começo, mas crescente com os nossos recursos — que nos salve o majestoso rio.

Voa de Stein, com a agudeza irrivalizável de seu belo espírito, comparou, algures, pinturescamente, o Xingu a um "enteado" da nossa geografia.

Estiremos o paralelo.

O Purus é um enjeitado.

(continua...)

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