Por Lima Barreto (1905)
O clérigo expôs o que fizera. Guardara-as em 16 grandes arcas de madeira do país. Cristo e os apóstolos já estavam na sala do Sol, à esquerda; e também lhe parecia, segundo o seu modesto julgar, que as portas das salas deviam ser vedadas e parte dos subterrâneos destruída, de forma que, se viesse a durar duzentos anos ou mais, a ocupação da cidade, nunca lograssem descobrir os valores.
Deu fim à sua explicação, com a leitura da ata que lavrara. Lida e assinada pelos doze iniciados na Monita Secreta, o padre reitor anunciou a segunda parte do capítulo.
Expôs:
— Há alguns anos, o paulista Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, penetrou no sertão dos índios Goianases, e aí encontrou minas de ouro fartas e ricas. E como Sua Paternidade, o Padre Provincial, me haja ordenado receber o mais possível aos Paulistas nas suas entradas, seguir-lhes as pegadas, resolvi despachar um pregador àqueles brasis.
Humildemente, rematou o Reitor, espero a opinião de Vossas Reverências. Padre Manuel de Assunção, chegado de Piratininga, achando o alvitre bom, observou.
— Deve ser quanto antes a partida da missão, porquanto, ao que ouvi em S. Paulo, o filho do Anhangüera reúne meios para continuar a empresa do pai.
Todas as conclusões foram acordes com o padre Reitor. Devia partir um missionário o quanto antes.
O presidente da Assembléia então continuou:
— Sendo o voto de todos o meu parecer, penso que o escolhido também será da vontade de Vossas Reverências.
— Assim será, padre Reitor, responderam os capitulares em coro.
— Exige-se-lhe coragem, inteligência, boa cópia de letras e solércia; e, como dentre Vossas Reverências sobre desses, grande foi a minha dificuldade na escolha; entretanto, o Santo Espírito iluminou-me e escolhi-o no padre professo João de Jouquières.
A assistência recebeu com um estremeço a decisão. Ninguém supunha fosse ela recair no irmão Jean, antigo Marquês de Fressenec. A permissão que tinha do Geral para se servir dos subterrâneos da Ordem a fim de experimentar as grosserias do mundo, parecia pô-lo a coberto das expedições longínquas. O escolhido foi quem na aparência menos se admirou. Pedindo a necessária vênia, observou:
— Vossa Paternidade muito se há de espantar do pedido que vou fazer.
— Vossa Reverência pode fazê-lo, retrucou o Reitor.
— Solicito de Vossa Paternidade dispensa de tão gloriosa missão, fez com doçura o padre.
— Vossa Reverência fará mercê de relatar os embargos? objetou o Reitor.
— Creio escusado dizê-los, pois que bem são sabidas de Vossa Paternidade as razões do alegado, disse o padre Jouquières, trocando um olhar de inteligência com o Reitor.
— Contudo Vossa Reverência deve declará-las à casa, padre João.
— Débil de corpo, careço de forças para suportar as agruras do sertão. Demais, não conheço suficientemente a língua geral...
— Não é mais Vossa Reverência o douto sábio que, com os novos elementos colhidos, corrigia o catecismo do padre Navarro? indagou com ironia o Reitor.
Sem se dar por achado, o jesuíta francês explicou:
— De fato, desde dois anos dedico-me ao estudo acurado das línguas americanas, mas daí a falar, a distância é grande!
— A prática de meses ajudará Vossa Reverência, objetou teimoso o Reitor.
(Continua)
Correio da Manhã - segunda-feira, 15 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO
Os Tesouros dos Jesuítas
D. Garça
II
Os Tesouros
(Continuação)
O padre reitor, velha raposa jesuíta, tinha aos poucos anulado todas as razões do moço religioso, que sentindo-se derrotado, se encheu de ódio e raiva, até ali contidos, assegurando com firmeza:
— Saberá Vossa Paternidade que não irei.
Os dez capitulares ficaram atônitos e pálidos. Conheciam o reitor, a pureza de sua fé, a sua inquebrantável energia. Temeram pelo antigo Marquês.
Entreolhavam-se.
O reitor crispou os dedos e ergueu-se da cátedra.
Era um homem baixo, magro, anguloso. Sob a sua tez tostada havia o baço dos ictéricos. Espanhol de nascimento, professara no Colégio de Évora. Mandado para o Pará, bem cedo mostrara o seu grande ardor apostólico. Andara 20 anos pelo Solimões, levando aos selvagens boas novas do sagrado evangelho. Tinha a confiança que os impressiona e a afabilidade que os rende.
Depois de professo só tivera um desejo — apostolar, e só quisera uma glória — o martírio.
Este, quase obtivera; mas a sua força d’alma afastara-o dele.
Apostolando no Madeira, prisioneiro dos Muras, fora amarrado ao poste do sacrifício. Próximo o fogo crepitava. Um enxame de vespas, repentinamente espantadas com a fumaça, voou feroz. Mordilharam-lhe o corpo, descarnado e nu; transformaram-no numa chaga só.
Quando os selvagens voltaram e contemplaram a sua fisionomia plácida, serena, de olhos untados de beatitude postos ao alto, admiraram aquela insensibilidade, e plenos de superstição soltaram-no respeitosos.
(continua...)
BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.