Por Lima Barreto (1911)
— Não, mas dizem que ele não faz questão. — É preciso cuidado.
Arrependeu-se o marido do mau humor com que recebera as perguntas da mulher e indagou com afeto, olhando-a demoradamente:
— Se ele não faz questão e é coisa de dinheiro, quer dizer...
— Quer dizer...
— Quer dizer; quer dizer — o quê?
— Quer dizer que você deve aproveitar, seu tolo!
— Como?
A mulher riu gostosamente e a velha ficou espantada com atitude da neta e o espanto de Numa.
— Como?! — fez Edgarda. — Eu sou deputado, por acaso? Por que não pergunta aos seus colegas... Veja como o Cristiano está rico! Quando foi eleito, tinha alguma coisa? Tinha nada, seu tolo! Tinha nada!
Houve entre os dois um silêncio de inteligência; e, aproveitando uma ausência do copeiro, Numa refletiu:
— Esse Fuas não é coisa muito boa.
A mulher descansou o garfo, serviu-se de vinho e disse com vagar:
— Em política, nessas coisas, a gente não tem muito que escolher. Se uns não são amigos dos outros, uns têm necessidade dos outros e as coisas vão passando. Você deve saber disso.
— É, mas esses homens de jornal... estrangeiro...
— Olhe, papai diz sempre: ninguém cospe no prato em que comeu; e papai já é antigo na política, é muito considerado... O que você deve fazer é aparecer, é falar, dar pareceres...
— Não tenho tido ocasião...
— Há sempre ocasião, desde que...
O copeiro interrompeu-os e avisou o patrão de que estava ali o Lucrécio que lhe queria falar.
Lucrécio, ou melhor: Lucrécio Barba-de-Bode, por sua alcunha, que tão intempestivamente interrompia o almoço do deputado Numa Pompílio, não era propriamente um político, mas fazia parte da política e tinha o papel de ligá-la às classes populares. Era um mulato moço, nascido por aí, carpinteiro de profissão, mas de há muito não exercia o ofício. Um conhecido, certo dia, disse-lhe que ele era bem tolo em estar trabalhando que nem um mouro; que isso de ofício não dava nada; que se metesse em política. Lucrécio julgava que esse negócio de política era para os graúdos, mas o amigo lhe afirmou que todos tinham direito a ela, estava na Constituição.
Já o seu amigo fora manobreiro da Central, mas não quis ficar naquela “joça” e estava arranjando coisa melhor. Dinheiro não lhe faltava e mostrou-lhe vinte mil réis: Sabes como arranjei? — fez o outro. — Arranjei com o Totonho do Catete, que trabalha para o Campelo.
Lucrécio tomou nota da coisa e continuou a aplainar as tábuas, de mau humor. Que diabo? Para que esse esforço, para que tanto trabalho?
Fez-se eleitor e alistou-se no bando do Totonho, que trabalhava para o Campelo. Deu em faltar à oficina, começou a usar armas, a habituar-se a rolos eleitorais, a auxiliar a soltura dos conhecidos, pedindo e levando cartas deste ou daquele político para as autoridades.Perdeu o medo das leis, sentiu a injustiça do trabalho, a nulidade do bom comportamento. Todo o seu sistema de idéias e noções sobre a vida e a sociedade modificou-se, se não se inverteu. Começou a desprezar a vida dos outros e a sua também. Vida não se fez para negócio... Meteu-se numa questão de jogo com um rival temido, matou-o e foi sagrado valente. Foi a júri, e, absolvido, por isto ou por aquilo, o Totonho fez constar que o fora por empenho do Dr. Campelo. Daí em diante se julgou cercado de um halo de impunidade e encheuse de processos. Quando voltou a noções mais justas e ponderou o exato poder de seus mandantes estava inutilizado, desacreditado, e tinha que continuar no papel...
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.