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#Anedotas#Literatura Brasileira

O caminho de Damasco

Por Machado de Assis (1871)

— Até que enfim! exclamava outro a alguma distância.

— Por quê?

— Estás pálido. Já sei; amores...

Alguns — os que lhe deviam algumas somas — passavam de largo. Jorge nem os via; um só pensamento o levava: a moça.

Não admira, pois, que a mesma dama, já vista de relance no primeiro capítulo desta história, passasse por ele, e o cumprimentasse sem que Jorge tirasse o chapéu. A dama sentiu-se ferida no seu amor-próprio, e à noite, entre dois conhecidos, no Alcazar, rezou uma triste oração pelo estróina.

— Lembra-te, disse um dos conhecidos, lembra-te que foi ele quem te deu a vitória em que andas.

— Águas passadas não movem moinhos, respondeu filosoficamente a dama. Desse o que desse, é um grosseirão.

O padre cumpriu a sua promessa; foi ter com Clarinha. A bela viúva recebeu o seu velho amigo com a efusão de uma alma verdadeiramente afetuosa. Havia já uma semana que ele lá não ia; supondo que estaria doente, ia mandar lá.

— Felizmente, apareceu, concluiu ela.

— Doente não estou, disse o padre; pelo contrário, nunca estive tão bom de saúde. Sabe por quê?

— Por quê?

— Porque estive ontem com seu primo Jorge.

Clarinha não respondeu.

— Está salvo, está curado, está homem de bem. Só lhe pesa uma coisa: é que você lhe não perdoasse, Clarinha. Há de perdoá-lo.

— Perdôo-lhe tudo.

— Não é assim; há de perdoá-lo sinceramente, com efusão, porque ele está verdadeiramente arrependido, e só precisa do seu perdão para ser feliz como era, como devia ser ainda hoje se não fora sua má cabeça. Perdoa, sim?

— Bem sabe, disse Clarinha, que eu não posso desobedecer-lhe. Dou-lhe o perdão que me pede.

— De coração?

— De coração.

— Trata-se, disse o padre, de salvar uma alma. Qualquer recusaria intervir num assunto destes; eu sou sacerdote; o meu dever é contribuir para a cessação do pecado. Jorge está regenerado; mas qualquer coisa pode pervertê-lo outra vez e para sempre. Clarinha adivinhou o resto.

— Há três meses que morreu meu marido, interrompeu a moça; dê-me o tempo necessário para chorar o melhor dos homens. Quanto a Jorge, é uma alma que se não salva mais. Perdoei-lhe; eis tudo, A moça conservou-se inflexível nesta resolução. Jorge não soube do resultado da conversa do velho sacerdote, porque este não julgou acertado comunicar-lhe. Era talvez um resto de melindre. Em todo caso, procurou consolá-lo.

O velho Aguiar insistia para que a sobrinha viesse morar com ele; ela não quis, seria estar perto do primo.

Jorge, entretanto, não perdeu ocasião de a encontrar e ver. A presença, o respeito, as provas de dedicação, a vida exemplar do moço, e além do mais, certa reminiscência que ficara no coração da moça, tudo isso fez que se precipitasse o desenlace natural da situação.

Um ano depois da morte do dr. Marques, casavam os dois primos. A notícia não causou grande espanto na sociedade equívoca, em que Jorge educara a sua mocidade. Meio perdido já estava ele, disse galhofeiramente a dama a quem ele acompanhara no Ginásio na noite que lá o viu o comendador.

Quem o casou foi o padre Barroso. Não se pode imaginar a alegria do bom velho. Parecia aquilo obra sua. E era, na verdade.

Um mês depois, estando ele em casa de Jorge, contou este a impressão profunda que recebera nos cinco dias em que assistira à agonia do médico.

— Foi só então, concluiu ele, que eu comecei a amar.

O padre sorriu.

—Nihil sub sole novum, disse ele. Há dezenove séculos aconteceu o mesmo a um homem ilustre que perseguia os cristãos. No caminho de Damasco, uma visão o converteu. Esse homem era S. Paulo. Uniu-se à melhor das noivas, a Igreja, e oxalá vocês se amem tanto, como aqueles dois se amaram. Deus me perdoará a comparação, porque amar é estar perto do céu.

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