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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

O reverendo entendeu a propósito contar ao Sr. barão, pelo miúdo, a história do "pobre órfão"; como ele o recolhera e sustentava, repetindo no fim de cada frase "Que não estava arrependido" e, terminando com a financeira e conhecida máxima: "Quem dá aos pobres, empresta a Deus!..."

VI

- É bem feiozinho, benza-o Deus! o tal teu amigo!... disse o barão ao filho, enquanto André se afastava para ir buscar a sua trouxa.

- Sim, mas um belo rapaz, respondeu Teobaldo. Tem por mim uma cega dedicação.- Embora! É muito antipático! Está sempre a olhar tão desconfiado para a gente!... E parece mudo - só me respondeu com a cabeça e com os ombros às perguntas que lhe fiz.

- É assim com todos.

- Nem sei como vocês se fizeram amigos. Então tu, que, segundo me disse ainda há pouco o Mosquito, não te chegas muito para os teus colegas.

- Só me chego para o Coruja. É o único.

Coitado! O reverendo, ao que parece, não morre de amores por ele; nem à mão de Deus Padre queria carregá-lo para casa.

- Um mau sujeito, o tal reverendo!

- Mas, com certeza não foi por maldade que o recolheu à sua proteção.

- Não sei. Talvez!...

Emílio olhou mais atentamente para o filho e disse sorrindo:

- Tens as vezes coisas que me surpreendem. Com quem aprendeste tu a desconfiar desse modo dos teus semelhantes?

- Contigo. Não me tens dito tantas vezes que gente deve desconfiar de todo o mundo?

- Para não sofrer decepções a cada passo.. exato!

- E que, no caso de erro, é preferível sempre nos enganarmos contra, do que a favor de quem quer que seja!...

- De certo. O homem deve sempre colocar-se superior a tudo e fazer por dominar a todos. O mundo meu filho, compõe-se apenas de duas classes - a dos fortes e a dos fracos; os fortes governam, os outros obedecem. Ama aos teus semelhantes, mas não tanto como a ti mesmo, e entre amar e ser amado, prefere sempre o último; da mesma forma que deves preferir sempre - dar, a pedir, principalmente se o obséquio for de dinheiro.

- Achas mau que eu seja amigo do Coruja?

- Ao contrário, acho excelente. Essa escolha, entre tantos colegas mais bem parecidos, confirma o bom juízo que faço do teu orgulho, e mostra que tens sabido aproveitar-te dos meus conselhos.

- Não compreendo.

- Também ainda é cedo para isso. É preciso dar tempo ao tempo.

O Coruja reapareceu sobraçando a sua pequena mala de couro cru.

- Pronto? perguntou-lhe Teobaldo.

O outro meneou a cabeça, afirmativamente.

- Pois então a caminho! exclamou Emílio, descendo a escada na frente dos rapazes.

Um carro os esperava à porta do colégio; o cocheiro tomou conta das bagagens; Emílio fez subir os dois meninos e sentou-se defronte deles.

André, muito esquerdo com a sua roupinha de sarja, que ia já lhe ficando curta, não olhava de frente para os companheiros e parecia aflito naquela posição; ao passo que Teobaldo, muito filho de seu pai, conversava pelos cotovelos, dizia o que vira, praticara e assistira durante o ano, criticando os colegas, ridicularizando os professores e, ao mesmo tempo, fazendo espirituosos comentários sobre tudo que lhe passava defronte dos olhos pela estrada.

Chegaram à fazenda às oito horas da noite. Vieram recebê-los ao portão a Sra. baronesa e mais a irmã, D. Geminiana, acompanhadas ambas pelo Caetano, que trazia uma lanterna.

Santa lançou-se ao encontro do filho, cobrindo-o de beijos sôfregos e a chorar e a rir ao mesmo tempo, enquanto um escravo, que acudira logo, desembarcava as malas e ajudava o cocheiro a desatrelar os animais.

Teobaldo passou dos braços da mãe para os da tia, que não menos o idolatrava, apesar de ser um tanto resingueira de gênio.

- O nosso morgado traz-lhe um hóspede! declarou o barão, empurrando brandamente o Coruja para junto das senhoras É aquele amigo de que ele fala nas cartas. Vem fazer-lhe companhia durante as férias.

André, muito atrapalhado de sua vida, porque jamais se vira em tais situações, quando deu por si estava nos braços da mãe do seu amigo e recebia um beijo na testa.

Coitado! Que estranhas sensações não lhe produziu aquele beijo, ainda quente da ternura com que foram dados os outros no verdadeiro filho! Há quanto tempo não aspirava o pobre órfão essa flor ideal do amor, essa flor sonora - o beijo!

Depois de sua mãe ninguém mais o beijara. E Santa, sem saber, acabava de abrir o coração do desgraçado um sulco luminoso, que penetrava até às suas mais fundas reminiscências da infância.

- Este menino está chorando! considerou D. Geminiana, que até aí observara o Coruja como quem contempla um bicho raro.

- Que tens tu? perguntou Teobaldo ao amigo.

- Nada, respondeu este, limpando as lágrimas na manga da jaqueta.

E o seu gesto era tão desgracioso, coitadinho, que todos, à exceção de Santa, puseramse a rir.

(continua...)

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