Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O grande corredor termina abrindo uma porta para um pequeno quarto, e outra em frente da do dormitório, dando entrada para um extenso salão com seis janelas para o pátio interior do colégio, salão que servia também de dormitório, e no fim do qual uma escada o separa do salão chamado da música, que aliás já visitamos.
Atualmente existe uma parede de tabique, levantada logo além da escada do refeitório, e essa parede divide em dois o grande corredor. As cinco salas e o salão seguinte estão destinados à habitação do reitor do externato.
Não posso continuar a descrição que vou fazendo da casa do externato do Imperial Colégio de Pedro II, sem libertar-me da lembrança de uma travessura de estudantes.
Mostrei-vos ainda há pouco o quartinho que tem uma escada para o forro do edifício.
Esse forro não tem separações, é um vão imenso, tenebroso, e em alguns pontos de altura muito irregular. É um mundo, em cujo seio caberia mais gente do que na platéia do Teatro Lírico ou no Teatro Provisório, esse monstro de arquitetura que se tem perpetuado provisoriamente.
Em certo ano, que não foi muito depois de 1849, notaram os inspetores do colégio que nas horas de recreio diversos alunos conversavam em português, em voz alta e sem mistério, mas de um modo que eles não podiam compreender.
Os rapazes falavam da cidade de Roma como se nela tivessem estado pouco antes. Marcavam a situação de praças e de ruas a que iam dando nomes de heróis e de heroínas da história romana. Preveniam-se uns aos outros de que no meio da Rua Tarquínio havia um despenhadeiro, de que na travessa de Nero se expunha a dar cabeçadas quem não passasse com cuidado, de que na praça de Graco ou na Rua do Tibre se podia andar perfeitamente.
Os inspetores viam-se perdidos no labirinto daquelas ruas e praças desconhecidas.
Ao mesmo tempo, recebeu o reitor participação de que certos alunos internos gazeavam nas aulas, e que depois apareciam de súbito sem se poder descobrir onde se tinham escondido. O velho porteiro Babo jurava por todos os santos que nenhum aluno interno saía nem entrava pela portaria sem licença.
O abuso repetia-se. A polícia do colégio pôs-se em atividade, e afinal conseguiu ver um aluno interno descendo furtivamente do forro pela escada do quartinho.
Estava descoberta a cidade de Roma.
O reitor impôs segredo à sua polícia, e no outro dia, dando-se por falta de alguns alunos nas aulas, mandou ele trancar a porta da escada do quartinho, e ficou à espera do resultado da peça que pregara aos gazeadores de aulas e viajantes do forro.
Acabadas as aulas, a sineta tocou a recreio, e como por encanto, apareceram todos os alunos internos, sem faltar um só.
Mas positivamente quatro deles tinham ido passear à cidade de Roma.
O reitor fingiu que se deixava enganar. Dobrou de vigilância. Cercou de espiões os gazeadores, e enfim, ao cabo de dois dias, achou-se na escada da torre a saída misteriosa por onde os rapazes desciam do forro e onde foram apanhados em flagrante delito.
Nesta história, o que há de mais curioso é que alguns dos alunos internos possuíam um estudo completo e muito minucioso da topografia do país do forro, e a mais esmerada planta da sua cidade de Roma, que estava toda dividida em ruas, praças e ladeiras, e por onde eles passeavam perfeitamente no meio da escuridão.
Um desses amantes daquela cidade de Roma é hoje um mancebo notável por sua bela inteligência e por sua instrução.
Quando entramos no longo corredor, para o qual se abrem não menos de nove salas, apontei-vos o salão dos prêmios. Não vo-lo descrevi, porém, cumprindo-me por isso fazê-lo agora que estou aqui a despedir-me do externato.
Para aquele salão entra-se por duas portas. Uma que o comunica com um pequeno quarto que o separa do corredor, e outra que o comunica com a sala do retrato.
O salão tem cento e sessenta e nove palmos de cumprimento sobre trinta e três de largura. Lança por um lado oito janelas para a rua da Prainha e seis para o segundo pátio do colégio, e tem no fundo dois quartinhos, o da direita com uma janela para a Rua da Prainha, e o da esquerda com uma janela para a Rua da Imperatriz.
Este vasto salão servia, durante o correr do ano, de dormitório para os alunos internos, e hoje serve de sala de estudo, sendo, como disse, destinado para a solenidade da distribuição dos prêmios e da colação do grau de bacharel no fim dos anos letivos.
Esta solenidade é grave, tocante e animadora, e sempre tem
sido honrada com a presença de Suas Majestades Imperiais. Começa pela
distribuição dos prêmios, que os alunos recebem da mão augusta do Imperador.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.