Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Sr. Félix, disse ele, este senhor está atualmente encarregado da administração da casa do Sr. Hugo de Mendonça?...
— Responda, Sr. Félix! disse com sua voz áspera o desconhecido.
Félix levantou os olhos, e viu embebidos em seu rosto os desse homem cheios de fogo e de audácia.
— Sim... balbuciou o guarda-livros.
— Segue-se, portanto, continuou Otávio, que devo-lhe entregar as letras que o senhor acaba de pagar-me?...
— Não, disse Félix; é a mim, que as vim pagar, que o Sr. Otávio deve fazer entrega delas. — Contanto que as entregue, interrompeu o desconhecido, é-me indiferente que seja a mim ou ao Sr. Félix.
Otávio no mais alto grau de perturbação e terror abriu uma gaveta, donde tirou as letras, que entregou a Félix; depois, voltando-se para o desconhecido, abaixou os olhos, e, com voz submissa e implorante, disse:
— Seria possível esperar que isto acabasse de uma maneira decorosa para todos?... — Seja, respondeu o desconhecido; eu me quero julgar satisfeito; porque ambos vós tereis de corar sempre diante de mim.
E, travando do braço de Félix, obrigou-o a acompanhá-lo e saiu, sem ao menos cortejar a Otávio.
XL
O moço loiro
Triunfante em toda a parte, contando cada hora por uma nova vitória, a causa do moço loiro perigava, todavia, corria sérios riscos de completamente perder-se no grande campo de guerra, onde cumpria vencer a batalha decisiva.
O aparecimento inesperado da cruz da família tinha mudado a face das discussões travadas na casa de Hugo de Mendonça; semelhante fato, que era ainda mais uma prova do amor e dedicação do moço loiro por Honorina, havia somente servido de forte argumento a favor de seu temível rival, do primo Lauro. Também aquele não devia ignorar que estava servindo de instrumento para a fortuna desse, por quem parece que fora enviado para demonstrar a sua inocência.
Com efeito, a família inteira de Hugo se empenhava agora com indizível força para obter o sim de Honorina a favor de seu primo. Ema, como querendo compensar seu neto das injustiças que lhe havia feito, era quem mais se extremava em oferecê-lo à bela neta, como o modelo dos noivos. A mãe Lúcia trabalhava no mesmo sentido, quanto podia: o único que se conservava no mesmo posto que dantes era Hugo, a quem apenas se ouvia dizer:
— Minha filha, consulta primeiro o teu coração; mas não te sacrifiques.
A crise terrível e assustadora que ameaçava Hugo, já também não espantava a velha Ema; feliz com sua fé, feliz com sua religiosa esperança, ela exclamava a miúdo:
— Não há mais desgraça possível para nós: a cruz da família apareceu; o nosso talismã vai salvar-nos.
Mas, entretanto, o moço loiro estava mais que nunca presente ao coração de Honorina: cada palavra, cada idéia, cada lembrança que ouvia lhe faziam recordar a imagem daquele que, oculto sempre a todos os olhos, desaparecendo, a despeito das suas indagações, aparecia, contudo, quando era preciso demonstrar o amor que tinha por ela; quando se fazia necessário prestar-lhe um pequeno ou grande serviço; quando, enfim, ela pedia ao céu um anjo que a salvasse de algum perigo.
Oh! um amor tão profundo, uma dedicação tão generosa era bela, nobre e santa como a beneficência, que de improviso se apresenta para o bem, e de improviso se esconde, fugindo dos agradecimentos.
E Honorina, ruminando seus dias passados, largando todos os panos à sua imaginação fértil e brilhante, viu de novo o seu querido moço loiro escoando-se pela sombra, ou adorando-a de joelhos ao clarão de cheio luar; ouviu-a ainda sua voz sonora; e, enfim, repetindo a si mesma os melancólicos pensamentos de seu livro de amor, e recordando-se a todo o instante do último serviço que acabava de prestar-lhe, e também generosamente a seu rival, revoltava-se contra esse pensamento frio e desabrido, contra esse esqueleto horrível, que como uma barreira a queria separar de seu romanesco amante... revoltava-se contra a idéia da miséria do pobre.
Desde o grito de surpresa que soltara, ouvindo Félix pronunciar o nome de moço loiro, Honorina se arrancara do estado de inércia em que se achava; e seu rosto, até então comprimido pela mais acerba tristeza, dilatou-se com não sei quê magnética e entusiástica alegria; brilhavamlhe os olhos cheios de ardor e fogo; branda nuvem cor-de-rosa lhe assomava as faces; feiticeiro sorrir de confiada esperança brincava-lhe descuidadoso nos lábios; seu semblante exprimia valor e decisão; batia-lhe o coração rápido e forte; e seu pulso agitado e irregular faria crer que ela estava em uma hora de febre.
Apesar de sua avó, talvez mesmo que apesar de seu pai, a filha de Hugo de Mendonça dará a sentença a favor do moço loiro.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.