Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Em 1842, publicou o Dr. Valdez a relação duma parte da sua viagem de Cuzco ao Pará pelos rios Vilcamayo, Ucuyaly e Amazonas, precedida de um bosquejo sobre o estado político, moral e literário do Peru em suas três grandes épocas. É um trabalho curiosíssimo e digno de ser consultado.

Colaborou esse distinto peruano em diversos periódicos heb domadários e sustentou por mais de um ano a Nova Minerva, onde deixou um testemunho seguro dos seus variados conhecimentos.

A vida do infeliz e nobre proscrito político foi toda de saudades da pátria natal e de trabalho incessante na pátria adotiva.

Em 1844, o Dr. Valdez descansou morrendo, deixando por únicos bens na terra dois filhos menores na mais completa pobreza. Na sua bolsa não se achou recurso para dar um lençol ao seu cadáver, que foi amortalhado e levado ao último jazigo pelos professores do Imperial Colégio de Pedro II.

A cadeira de história e geografia coube, na época da fundação do colégio, ao Sr. Dr. Justiniano José da Rocha, depois ao cônego Dr. Marcelino José da Ribeira, e em seguida, ao barão de Planitz e ao Sr. João Batista Calógeras.

Em 1849, foi essa cadeira dividida em duas: na de história e geografia moderna e média, e na de história e geografia antiga, separando-se ainda interinamente da primeira a história do Brasil.

A primeira cadeira foi ocupada pelo mesmo Sr. Calógeras, e em 1850, pelo Dr. Joaquim Manuel de Macedo.

A segunda coube ao Dr. Joaquim Manuel de Macedo em 1849, e depois ao padre-mestre frei Camilo de Montserrate e ao bacharel João Antônio Gonçalves da Silva.

A interina de história do Brasil foi confiada ao Sr. Dr. Antônio Gonçalves Dias, e em breve de novo ligada à da história moderna.

Em 1858, criou-se uma aula especial de história e corografia do Brasil, uma outra de geografia geral e encarregou-se o ensino da história média ao professor de história antiga.

Foi nomeado então professor de história do Brasil o Dr. Joaquim Manuel de Macedo, e professor de geografia o Sr. Dr. Pedro José de Abreu.

A cadeira de história moderna foi ocupada interinamente pelo Sr. Dr. Domingos Jaci Monteiro, e é hoje dela professor o Sr. Dr. Joaquim Mendes Malheiros, que foi um dos primeiros que tomaram o grau de bacharel no Imperial Colégio de Pedro II.

A cadeira de história antiga e média coube ao bacharel João Antônio Gonçalves da Silva, também um dos primeiros bacharéis do colégio, e agora vai ser ocupada pelo Sr. Dr. Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo .

João Antônio Gonçalves da Silva nasceu na cidade do Rio de Janeiro a 26 de fevereiro de 1828. Destinado a seguir a carreira das letras, matriculou-se no Imperial Colégio de Pedro II, cujos estudos fez com grande aproveitamento, merecendo ser premiado em diversos anos. Em 1845, tomou o grau de bacharel em letras. Matriculou-se depois na Escola Militar, que freqüentou por algum tempo, deixando-a, porém, por motivos estranhos à sua vontade.

Dedicando-se ao magistério, ganhou logo uma justa reputação, ensinando diversas matérias no colégio que ainda não perdeu o nome de seu ilustre fundador: o colégio Marinho.

Em 1858, a 26 de fevereiro, no dia do seu aniversário natalício foi nomeado professor da cadeira de história e geografia antiga do Imperial Colégio de Pedro II. Em 12 de março de 1859, recebeu a nomeação de professor de francês da Escola de Marinha, e logo depois, a de latim e francês da Escola Central .

Em 1861, a 31 de janeiro, uniu-se pelos laços do himeneu a uma digna senhora escolhida pelo seu coração. Quando, porém, saudava a felicidade, caiu ferido por uma enfermidade cruel que devia levá-lo ao túmulo; e quatro meses e meio depois do seu casamento, e no fim de dois meses de incessantes e dolorosos padecimentos, deu a alma a Deus, no dia 18 de julho de 1861.

A dor e o pranto dos seus colegas, numerosos amigos e discípulos fizeram o mais completo elogio das excelentes qualidades do bacharel Gonçalves.

Este digno fluminense, o bacharel João Antônio Gonçalves da Silva, era ativo e severo no cumprimento dos seus deveres. Grave e muitas vezes austero na cadeira de professor, brincalhão, espirituoso e sempre alegre no seio da amizade.

Era um companheiro com quem se podia contar para o traba lho como para a alegria. Ninguém era mais laborioso que ele, e ninguém podia estar triste ao seu lado.

Cultivando sempre as matérias que estudara no colégio de que era filho, pôde ensinar a história e geografia, latim, francês, grego e matemáticas. Não era profundo em todas essas matérias. Tinha, porém, o dom de ensinar, e os seus discípulos aproveitavam sempre muito.

O bacharel Gonçalves pertenceu a diversas sociedades literárias. Amava bastante o teatro, e a Ópera Nacional deveu-lhe bons serviços em seu berço e nos dias de suas mais belas esperanças, pois que ele se prestou gratuitamente a ensinar aos artistas novéis dessa companhia que o amor da arte e o patriotismo improvisaram na cidade do Rio de Janeiro.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...134135136137138...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →