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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Eu já disse que não acredito no que inventaste para assustar-me; tenho um fiador na cruz de brilhantes.

— A cruz de brilhantes aparecerá nas mãos da filha de Hugo de Mendonça...

— É falso!...

— Otávio... as letras!

— Não!

— Oh!... mas tu me estás desafiando!

— Sim!...

— E quando eu amanhã estiver gritando diante de todos, no meio de uma rua, ou na praça do comércio — o Sr. Otávio é um falsário!...

— Eu responderei que mentes!

Félix, com um terrível e vingativo sorriso estremecendo-lhe nos lábios, arrancou um papel do bolso:

— E esta carta?... exclamou ele, e esta carta?...

— Esta carta?...

— Sim! a carta que me lançaste por baixo da porta, a carta em que me convidas para perpetrar o crime! — Oh!...

— Como é que tu hás de responder — ele mente! —, sabendo que para logo eu mostraria a todos a tua assinatura, o corpo de delito de nosso mútuo crime?...

— Miserável!...

— As letras! as letras, Otávio!...

— Miserável! disse outra vez Otávio, fazendo um movimento para erguer-se.

— Otávio, nem um só passo para mim que não seja para entregar-me as letras falsas; eu aprendi com o homem que me fez ir de joelhos entregar a cruz de brilhantes àquela a quem pertencia, a prevenir-me contra tudo; então, eu avancei para ele, como tu queres avançar para mim, e vi brilhar na sua mão uma arma mortífera, como tu verás brilhar na minha instrumento semelhante, se tanto for necessário.

Otávio, pálido de cólera, olhou de um modo terrível para Félix, em cujo peito viu luzir o cabo de um punhal.

— Porque, enfim, Otávio, as circunstâncias nos têm levado a extremos tais.

— Mas isto é uma infâmia!... disse com voz abafada Otávio, voltando a cabeça para o lado da porta, como quem ia chamar alguém.

— A primeira pessoa que aqui entrar, disse Félix, ficará para logo sabendo que tu exiges de Hugo de Mendonça o pagamento de três letras falsas. Chama agora os teus caixeiros, chama os teus escravos, Otávio.

— Maldito!... maldito!...

Nesse instante o relógio fez ouvir o sinal de meia hora depois das dez.

— Dez horas e meia!... exclamou Otávio; é a hora marcada pelo bilhete!...

Um escravo anunciou que ia entrar um homem embuçado em longa capa preta.

— As letras?!... disse Félix.

— Félix!... Félix!...

— As letras!...

Ouviam-se já muito próximas as pisadas da pessoa anunciada.

— As letras!... repetiu Félix com tom decidido e firme.

— Félix, disse Otávio com voz trêmula e fraca, peço-te meia hora para determinar-me; entra nesta alcova, enquanto falo ao homem que vai entrar.

— Seja, respondeu Félix entrando; mas só meia hora.

Quando a porta da alcova acabava de cerrar-se, o homem entrou no gabinete.

Esse homem vinha, como dissera o escravo de Otávio, embuçado em uma longa capa preta, cuja gola estava tão levantada que lhe escondia quase todo o rosto, e até os cabelos, de modo que apenas se lhe descobria parte média da testa e olhos, o nariz e o alto da cabeça: — era ele.

— Perdão, se me apresento assim, disse, tendo os olhos fitos na porta da alcova, como se examinasse alguma coisa; perdão, mas estou doente... constipado...

Otávio, sem dizer palavra, arrastou-lhe uma cadeira; a voz desse homem tinha produzido cruel abalo em Félix, que acabava de reconhecer nele o seu desconhecido.

— Não me sentarei, disse este; o negócio de que venho tratar conclui-se em poucas palavras.

— Estou às suas ordens, respondeu Otávio.

— Senhor, acho-me encarregado da administração da casa do Sr. Hugo de Mendonça, e como tal venho receber três letras na importância de quarenta e seis contos de réis, as quais existem na sua mão, e que, segundo creio, deverão já estar sobejamente pagas pelo Sr. Félix, guarda-livros da nossa casa.

Essas palavras foram pronunciadas com tal acento de ironia, e acompanhadas por um sorriso tão cheio de cruel zombaria, que pareciam estar dizendo — sabe-se de tudo.

Otávio empalideceu de maneira a causar piedade; como querendo achar uma resposta, e força para poder dá-la, guardou silêncio por alguns instantes; mas o olhar terrível e penetrante desse homem estava fito nele, como um dardo que se lhe ia enterrando até o coração; para escapar à sua influência, Otávio voltara os olhos, porém o sorriso do desconhecido se foi tornando em uma verdadeira risada insolente... sarcástica... ameaçadora...

Houve um momento de cruel angústia para Otávio, em que ele pensou, tremendo no desconhecido de Félix, e em que esse homem que aí estava em pé, defronte dele, continuou a rirse, a rir-se sempre, e alto, insultuosa e desafiadoramente...

Enfim, Otávio pareceu haver tomado uma resolução: foi à porta da alcova, abriu-a e fez sair Félix.

(continua...)

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