Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O Dr. Francisco de Paula Meneses nasceu na freguesia de S. Lourenço, em Niterói, a 25 de agosto de 1811. Viu a primeira luz perto do sítio em que Martim Afonso, o Ararigbóia, assentara a sua aldeia depois que Mem de Sá lançou os fundamentos da cidade do Rio de Janeiro.
Mostrando muita viveza e talento desde os mais verdes anos, Francisco de Paula Meneses desejou seguir a carreira das letras, contrariando nisso a vontade de seu pai, José Antunes de Meneses. que pretendia fazê-lo seguir o curso da Academia das Belas-Artes. O pai contemporizou com o filho, esperando sempre, mas sempre debalde, vencer-lhe a vocação.
Paula Meneses matriculou-se na Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, e em 1834 chegou ao termo do curso escolar, tomando o grau de doutor em medicina em 1838.
Em 1833, sendo ainda simples estudante da Academia Médico-Cirúrgica, foi mandado pelo governo para a vila de S. Antônio de Sá, que era de novo assolada pelas terríveis febres paludosas que tão fatais lhe foram. Aí, no campo da peste, o jovem estudante disputou com a morte e arrancou-lhe das garras vitimas feridas pela moléstia cruel.
Depois de tomar o grau de doutor em medicina, Paula Mene ses, por duas vezes, tentou em concurso público conquistar uma cadeira na escola de que era filho; e se em nenhuma delas alcançou os louros da vitória, nem por isso saiu da luta abatido pela vergonha de uma derrota humilhante. Os vencedores olharam-no com respeito depois do combate.
Em 1844, foi o Dr. Paula Meneses nomeado pelo governo de Sua Majestade professor público de retórica do município da corte, e em 1848, professor da mesma cadeira do Imperial Colégio de Pedro II, onde também lecionou interinamente, durante alguns meses, filosofia.
Apesar do labor do magistério e dos cuidados da clínica médica, que tantas fadigas lhe custavam, achava o Dr. Paula Meneses ainda tempo de sobra e ânimo bastante para se ocupar de outros e importantes trabalhos que aproveitavam ao país. Foi sempre um membro ativo e dedicado de muitas das nossas sociedades científicas e literárias. No Instituto Histórico e Geográfico do Brasil serviu de segundo secretário durante não poucos anos. Na Academia Imperial de Medicina foi também por alguns anos o redator da competente revista. Concorreu como colaborador para diversos periódicos literários e publicou uma revista literária, de que foi o principal ou quase único redator.
Deixou numerosos discursos impressos e também diversos manuscritos, entre os quais alguns infelizmente incompletos. Compôs, e não sei onde param, uma tragédia em verso endecassílabo intitulada Lúcia de Miranda, um drama e uma comédia que tinha por título A noite de S. João na roça.
Sobressaíam entre esses manuscritos os quadros da literatura brasileira, a que faltava a última parte, de que ele mais fervoroso se ocupava, quando foi atacado pela enfermidade que o levou à sepultura em 1857, tendo então apenas quarenta e seis anos de idade.
O Dr. Francisco de Paula Meneses possuiu em sumo grau o dom da palavra. Tinha imaginação viva e compreensão fácil. Era feliz nos improvisos. Muitas vezes brilhante no discurso e gozou de uma bem merecida nomeada.
A cadeira de filosofia do Imperial Colégio de Pedro II foi ocupada pelo Sr. Dr. Domingos José Gonçalves de Magalhães, e o é agora pelo Sr. padre-mestre frei José de Santa Maria Amaral. Mas, entre o ilustre poeta e o venerando e ilustrado beneditino, lecionaram interinamente a mesma matéria Santiago Nunes Ribeiro, Dr. Francisco de Paula Meneses e o Sr. bacharel Joaquim Pinto Brasil.
A cadeira em que não têm parado professores no Imperial Colégio de Pedro II é a de inglês. Pois que, entre interinos e não interinos, já se contam em vinte e quatro anos não menos de treze! Eis aqui os nomes desses professores: Srs. Diogo Mare, José Luís Alves, Guilherme Fairfax Norris, José André Garcia Ximenes, outra vez Guilherme Fairfax Norris, Dr. Ernesto Ferreira França, Dr. José Manuel Valdez y Palacios, Galiano Ravara, Ciro Cardoso de Meneses, Alberto Cumberworth, Simeão Pereira de Morais Abunaiuba, bacharel Miguel Arcanjo da Silva Costa, e enfim, Dr. Filipe da Mota Azevedo Correia.
Dizem que o número treze é infeliz. Mas contra esse pueril prejuízo está protestando o Colégio de Pedro II, que se acha muito feliz com o seu décimo-terceiro professor de inglês o Sr. Dr. Azevedo Correia.
O Dr. José Manuel Valdez y Palacios, ilustrado peruano, deixou a pátria, fugindo às reações políticas e à morte, de que estava ameaçado. Trazendo consigo um filho, sobe os Andes, e através de todas as privações, procura a terra hospitaleira do Brasil, chega ao Pará, depois de correr mil perigos, vem para o Rio de Janeiro, e aqui acha ao menos tranqüilidade e pão, embora se visse abatido pela pobreza.
O Dr. Valdez teve um recurso no magistério e foi professor
público de inglês no Liceu de Niterói e no Imperial Colégio de Pedro II.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.