Por José de Alencar (1857)
Numa segunda palma, também côncava, apanhou a água cristalina da corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecília lavar as mãos depois da refeição. Quando acabou esses preparativos que ele fazia com uma satisfação inexprimível, Peri sentou-se junto da menina e começou a trabalhar num arco de que precisava. O arco era a sua arma favorita, e sem ele, embora possuísse a clavina e as munições que por precaução deitara na canoa para servirem a D. Antônio de Mariz, não tinha tranqüilidade de espírito e confiança plena na sua agilidade. Reparando, porém, que sua senhora não tocava nos alimentos, ergueu a cabeça e viu o rosto da menina banhado de lágrimas, que calam em pérolas sobre os frutos e os rociavam como gotas de orvalho.
Não era preciso adivinhar para conhecer a causa dessas lágrimas.
— Não chora, senhora, disse o índio aflito; Peri te falou o que sentia; manda, e Peri fará a tua vontade.
Cecília olhou-o com uma expressão de melancolia que partia a alma.
— Queres que Peri fique contigo? Ele ficará; todos serão seus inimigos; todos o tratarão mal; desejara defender-te e não poderá; quererá servir-te e não o deixarão; mas Peri ficará.
— Não, respondeu Cecília; não exijo de ti esse último sacrifício. Deves viver onde nasceste, Peri.
— Mas tu vais ainda chorar!
— Vê, disse a menina enxugando as lágrimas; estou contente.
— Agora toma uma fruta.
— Sim; juntaremos juntos, como jantavas outrora no meio das matas com tua irmã.
— Peri nunca teve irmã.
— Mas tens agora, respondeu ela sorrindo.
E como uma filha das florestas, uma verdadeira americana, a gentil menina fez a sua refeição, partilhando-a com seu companheiro, e acompanhando-a dos gestos inocentes e faceiros que só ela sabia ter.
Peri admirava-se da mudança brusca que se tinha operado em sua senhora, e no fundo do seu coração sentia um aperto, pensando que ela se consolara bem depressa com a lembrança da separação.
Mas ele não era egoísta, e preferia a alegria de sua senhora a seu prazer; porque vivia antes da vida dela do que da sua própria.
Depois da refeição, Peri voltou ao seu trabalho.
Cecília, que desde o primeiro dia sentia-se abatida e lânguida, tinha recobrado um pouco de sua vivacidade e gentileza dos bons dias.
O rosto mimoso conservava ainda a sombra melancólica que lhe deixaram impressas as cenas tristes de que fora testemunha, e sobretudo a última desgraça que a tinha privado de seu pai e de sua mãe.
Mas essa mágoa tomava nas suas feições uma expressão angélica, e tal mansuetude e suavidade, que dava novo encanto à sua beleza ideal.
Deixando seu companheiro distraído com a sua obra, chegou à beira do rio e sentou-se junto de uma moita de uvaias, à qual estava amarrada a canoa.
Peri viu-a afastar-se, e sempre seguindo-a com os olhos, continuou a preparar a vergôntea que devia servir-lhe de arco, e as canas selvagens, as quais o seu braço ia dar o vôo da ave altaneira.
A menina, com a face apoiada na mão e os olhos postos na correnteza do rio, cismava; às vezes as pálpebras cerravam-se; os lábios se agitavam imperceptivelmente; nesses momentos parecia que conversava com algum espírito invisível.
Outras vezes, um doce sorriso despontava nos seus lábios e desfazia-se logo, como se o pensamento que viera pousar ali voltasse a esconder-se no fundo do coração, donde se tinha escapado.
Por fim ergueu a fronte com o meneio de rainha, que às vezes tomava a sua cabecinha loura, à qual só faltava o diadema; a fisionomia mostrou uma expressão de energia, que lembrava o caráter de D. Antônio de Mariz.
Tinha tomado uma resolução; uma resolução firme, inabalável, que ia cumprir com a mesma força de vontade e coragem que herdara de seu pai, e dormia no fundo de sua alma, para só revelar-se nas ocasiões extremas.
Levantou os olhos ao céu, e pediu a Deus um perdão para uma falta, e ao mesmo tempo uma esperança para uma boa ação que ia praticar; sua oração foi breve, mas ardente e cheia de fervor.
Enquanto isso se passava, Peri, vendo que as sombras da terra já se deitavam sobre o leito do Paraíba, conheceu que era tempo de partir, e preparou-se para continuar a viagem.
No momento em que levantava-se, Cecília correu para ele, e colocou-se em face, de modo a lhe ocultar a vista do rio.
— Tu sabes? disse ela sorrindo; tenho uma coisa a pedir-te.
Esta só palavra bastava para que Peri não visse mais nada senão os olhos e os lábios de sua senhora, que iam dizer-lhe o que ela desejava.
— Quero que apanhes muito algodão para mim e me tragas uma pele bonita. Sim?
— Para quê? perguntou o índio admirado.
— Do algodão fiarei um vestido; da pele tu cobrirás os meus pés.
Peri, cada vez mais admirado, ouvia sua senhora sem compreendê-la:
— Assim, disse a menina sorrindo, tu me deixarás acompanhar-te, os espinhos não me farão mal.
O espanto do índio tinha-o tornado imóvel; mas de repente soltou um grito, e quis precipitar-se para o rio.
A mãozinha de Cecília apoiando-se no seu peito, reteve-o.
— Espera!
— Olha! respondeu o índio inquieto apontando para o rio.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.