Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Otávio amava Honorina com uma dessas paixões veementes, que cegam o homem, e o podem precipitar; possuir o objeto de seus anelos era pois para ele, no raciocinar de seus transportes, um fim, onde importava chegar por quaisquer meios que fossem; pareceu-lhe que lavar uma mancha não era um impossível neste mundo severo, em que quase é regra não se dar regeneração moral possível.
Levado do ímpeto de sua paixão, ele não hesitou em ir propor a Félix uma transação infame, não trepidou diante de Hugo de Mendonça, quando estava representando em sua consciência o mais miserável dos papéis; porque, enfim, esse era o seu sonho, o sonho lisonjeiro que lhe prometia a posse de Honorina; mas quando sentiu que o pai da bela requestada se erguia orgulhoso sobre sua própria miséria, quando viu que seu derradeiro esforço ia ser baldado, o sonho começou a esvaecer-se, e ele, despertando, achou-se só, isolado, longe de Honorina, e identificado com a infâmia. Otávio caiu, então, debaixo do peso de suas reflexões. Era o período da febre que tinha passado, e cedido seu lugar à prostração.
Com efeito, livre por um instante do alarido das paixões, a alma de Otávio começou para logo a ouvir a voz pausada, grave e monótona da consciência, voz que é sempre a mesma, com o mesmo timbre, e que jamais se cala, incessante e monótona, como as vagas do mar, ou como o tique-taque da pêndula do relógio, que defronte estava.
Tão poderosa era essa voz, que já por dez vezes tinha podido volver à força os olhos de Otávio para a gaveta, onde se achavam guardadas as três letras falsas, que eram as provas palpitantes de seu crime; apesar do quanto sofria com tal recordação, a despeito do firme propósito que fizera de esquecer-se disso... Otávio olhava sempre.
Tão vingativa era essa consciência que falava, que tinha apagado a derradeira luz de esperança que Otávio poderia descobrir no correr do dia do vencimento das letras; indigno de felicidade a seus próprios olhos, Otávio gemia, adivinhando que a posse de Honorina era para ele um impossível.
Tão formidável, enfim, era essa voz, que aquele que de contínuo a estava ouvindo, temia que ao passar pelas ruas uma boca lhe gritasse — falsário!... oh! ele tinha medo de Félix, tinha medo do mundo, e corava diante do seu espelho! Finalmente, ouvindo dar dez horas, disse:
No correr da mesma noite em que se passaram com Félix, Manduca e o desconhecido as cenas de que demos conta, estava, pois, Otávio, triste e pensativo, sentado no seu gabinete de trabalho, e olhando de momento a momento para o relógio.
Finalmente, ouvindo dar dez horas, disse:
— Ainda me falta meia hora!
Depois tirou de seu bolso um pequeno bilhete, que leu ainda uma vez; pois que já o tinha feito por muitas vezes. O bilhete dizia assim:
“Negócio importante que cumpre ser decidido hoje mesmo com o Sr. Otávio me obriga a pedir-lhe licença para procurá-lo às dez horas e meia da noite em ponto.” Ou por descuido, ou de propósito, o bilhete carecia de assinatura.
Bilhete tão estranhamente concebido, hora de encontro tão mal escolhida, a ignorância em que se achava Otávio a respeito do negócio, que tão urgente se dizia, e, enfim, o receio que ele começava a ter de tudo quanto lhe parecia pouco comum, faziam com que Otávio esperasse ansioso pela hora determinada.
Recolhendo-se a seu gabinete, ordenara a um de seus escravos que ali fosse conduzida uma pessoa, que se apresentaria pouco depois das dez horas da noite.
Faltavam ainda vinte minutos para essa hora, quando o escravo anunciou e fez entrar o Sr. Félix.
Ao ver aquele que conhecia a mancha que nodoava sua reputação, Otávio corou, involuntariamente, e, apontando para uma cadeira, disse:
— Senta-te.
— Não, Otávio, eu não me sentarei.
— Pois conversaremos de pé; mas nunca me passou pela cabeça que fosses tu quem me escreveu aquele bilhete singular.
— Eu não te escrevi bilhete algum.
— É que a tua visita a estas horas...
— A minha visita a estas horas, Otávio, quer dizer que entre nós tem de decidir-se uma questão bem grave.
— E então...
— Eu venho dizer-te que tive uma hora de loucura, da qual me acho felizmente curado, e que por conseqüência posso desfazer tudo quanto havia feito desarrazoadamente.
— Peço que te expliques... e depressa: vês que eu espero alguém.
— Pensei que me tinhas compreendido, Otávio; porque a minha hora de loucura se passou entre nós dois.
— E portanto...
— E, portanto, eu te declaro que já não me acho disposto a consentir que seja reduzida à miséria uma família inteira, para obrigá-la a sacrificar-te uma bela moça.
— Félix!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.