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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Pensava no passado que não voltaria; no presente que devia escoar-se rapidamente; e no futuro que lhe aparecia vago, incerto e confuso. 

Pensava que de todo o seu mundo só lhe restava um irmão de sangue, cujo destino ignorava, e um irmão de alma, em que tinha concentrado todas as afeições que perdera. 

Um sentimento de tristeza profunda anuviava o seu semblante, lembrando-se de seu pai, de sua mãe, de Isabel, de Álvaro, de todos que amava e que formavam o universo para ela; então o que a consolava era a esperança de que os dois únicos corações que lhe restavam, não a abandonariam nunca. 

E isto a fazia feliz; não desejava mais nada; não pedia a Deus mais ventura do que a que sentiria vivendo junto de seus amigos e enchendo o futuro com as recordações do passado. 

A sombra das árvores já beijava as águas do rio, e Peri ainda não tinha voltado; Cecília assustou-se, e, temendo que lhe tivesse sucedido alguma coisa, chamou por ele. 

O índio respondeu longe, e pouco depois apareceu entre as árvores; o seu tempo não tinha sido inutilmente empregado, a julgar pelos objetos que trazia. 

— Como tardaste!... disse-lhe Cecília erguendo-se e indo ao seu encontro. 

— Tu estavas sossegada; Peri aproveitou para não te deixar amanhã.

— Amanhã só? 

— Sim, porque depois chegaremos. 

— Aonde? perguntou a menina com vivacidade. 

Aos campos dos goitacás, à cabana de Peri, onde tu mandarás a todos os guerreiros da tribo.

— E depois, como iremos ao Rio de Janeiro? 

 

— Não te inquietes; os goitacás têm igaras grandes como aquela árvore que toca às nuvens; quando eles atiram o remo, elas voam sobre as águas como a atiati de asas brancas. Antes que a lua, que vai nascer, tenha desaparecido, Peri te deixará com a irmã de teu pai. 

 

— Deixará!... exclamou a menina, empalidecendo. Tu queres me abandonar? 

— Peri é um selvagem, disse o índio tristemente; não pode viver na taba dos brancos. 

— Por quê? perguntou a menina com ansiedade. Não és tu cristão como Ceci? 

— Sim; porque era preciso ser cristão para te salvar; mas Peri morrerá selvagem como Ararê. 

— Oh! não, disse a menina, eu te ensinarei a conhecer Deus, Nossa Senhora, as suas virgens e os seus anjinhos. Tu viverás comigo e não me deixarás nunca! 

— Vê, senhora: a flor que Peri te deu já marchou porque saiu de sua planta; e a flor estava no teu seio. Peri na taba dos brancos, ainda mesmo junto de ti, será como esta flor; tu terás vergonha de olhar para ele. 

— Peri!... exclamou a menina ofendida. 

— Tu és boa; mas todas as que têm a tua cor, não têm o teu coração. Li o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu o primeiro, pode ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e manda aos mais fortes. 

Cecília, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do índio, sentiu que não podia combater a sua resolução ditada por um sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma grande verdade, que o seu instinto adivinhava: ela tinha a prova na revolução que se operara no seu espírito, vendo Peri no meio do deserto, livre, grande, majestoso como um rei. 

Qual não seria pois a conseqüência dessa outra transição, muito mais brusca? Numa cidade, no meio da civilização, o que seria um selvagem, senão um cativo, tratado por todos com desprezo? 

No íntimo de sua alma quase que aprovava a resolução de Peri; mas não podia afazer-se à idéia de perder seu amigo, seu companheiro, a única afeição que talvez ainda lhe restava no mundo. 

Durante esse tempo, o índio preparava a simples refeição que lhes oferecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os frutos que tinha colhido: eram os araçás, os jambos corados, os ingás de polpa macia, os cocos de várias espécies. 

A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricara a sua colmeia no tronco de uma catuíba, de sorte que o mel puro e claro tinha perfumes deliciosos; dir-se-ia mel de flores. 

O índio tornou côncava uma palma larga e encheu-a com o suco do ananás, cuja fragrância é como a essência do sabor: era o vinho que devia servir ao banquete frugal. 

(continua...)

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