Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Ora, a viúva tinha tomado bem suas disposições para que a vergonha fosse completa: Honorina não devia lavar-se mais nunca daquela nódoa, aliás todo o seu trabalho estava perdido. Lucrécia entendeu que havia necessidade de testemunhas, e se propôs a tê-las; para isso um escravo seu foi à casa de Venâncio e entregou a Tomásia um bilhete dela, que dizia assim:
“Minha comadre. A amizade que lhe tenho não me deixa gozar com satisfação um prazer em que Vossa Mercê não tome também parte. Quero que venha apreciar comigo uma bela cena: o nosso amigo Brás-mimoso trata de casar-se, e pelo sim pelo não a noiva chega-lhe hoje às dez horas da noite; vamos causar-lhe uma surpresa, e recebê-la; havemos de rir-se muitíssimo; às dez horas, pois, esteja com seu marido, sua filha e seu filho em casa de Brás-mimoso, e, se eu me demorar, esperem-me, que não tardarei.”
Sua comadre do coração — Lucrécia.
Esse bilhete foi recebido às nove horas da noite, e deu vivíssimas contestações; porque Venâncio sustentava que não devia levar sua família à casa de um homem solteiro; mas, como sempre, a vontade de ferro de Tomásia triunfou dos pudicos receios de seu marido.
Conseqüentemente, às dez horas da noite Venâncio, Tomásia e Rosa achavam-se em casa de Brás-mimoso, que parecia ornada com estudo, e muito de fresco.
Manduca não acompanhou sua família, porque desde as oito horas da noite se achava fora de casa: melhor do que os próprios pais, sabem os nossos leitores o que era feito dele.
Lucrécia não havia ainda chegado; isso, porém, não admirava a comadre, pois pelo bilhete da viúva conhecia-se que ela contava demorar-se. Brás-mimoso era esperado a todos os instantes.
Estavam, pois, os três pensando se a noiva seria bonita ou feia; quando ouviram o rodar de uma sege, que parava à porta: era a noiva!...
Lembrando-se da palavra surpresa escrita no bilhete da viúva, Tomásia fez entrar seu marido e sua filha, e entrou ela também para a alcova, fechando de novo a porta, porque já ouviam os passos de duas pessoas, que subiam a escada.
Manduca, a princípio espantado, viu que sua companheira abria sem-cerimônia a sege, tomava-lhe a mão, e o fazia apear-se em uma rua muito diferente daquela em que existe o convento da Ajuda; semelhante passo, uma tal ação praticada por Honorina, a fazia perder muito no seu conceito; mas tarde para recuar, e, enfim, forte e valente como era o moço, não temeu nada e foi-se deixando levar.
A moça deu o braço a Manduca, e entrou em um corredor... subiram sem bater palmas... e, enfim, chegaram à sala.
Houve um momento de hesitação em que Manduca e sua companheira ficaram olhando um para o outro... depois, e a um só tempo, arrancaram suas máscaras...
Duas exclamações de espanto se deixaram ouvir então... e ambos aqueles vultos de mulher recuaram espantados...
A companheira de Manduca era nada menos que Brás-mimoso vestido também de mulher!
Para perder Honorina, Lucrécia tinha tido pouco mais ou menos o mesmo pensamento que tivera o moço loiro para salvá-la e vingá-la.
Brás-mimoso soltou de novo um grito de espanto e de medo.
— Que traição! exclamou ele.
Manduca ficou um momento embasbacado; logo depois bradou:
— É agora, jagodes de uma figa!
E atirou-se sobre o seu rival, dando-lhe socos, como o churinado depois da lição de seu mestre.
Venâncio, Tomásia e Rosa acudiram aos gritos que soltava o velho gamenho.
Foi um triunfo importante arrancar Manduca de cima de Brás-mimoso, sobre quem estava agarrado como uma sanguessuga.
O resto da cena tornou-se completamente ridícula.
Manduca tinha a sua touca enfiada no pescoço; só lhe restava um dos cachos; o vestido estava roto de cima a baixo; e já havia neste uma manga de menos; espumando de raiva, dizia:
— Eu!... eu beijar a mão deste tratante!...
Brás-mimoso estava sem touca e sem cabeleira... tinha os beiços rebentados pelos socos que apanhara, e sua figura se tornava absolutamente risível, quando se olhava para seus vestidos de mulher, e depois para sua cabeça absolutamente calva.
— Nesta, dizia ele, só me podia meter a Sr.ª D. Lucrécia!
Uma gargalhada de Rosa rematou a cena.
XXXIX
O novo administrador
Sentado numa bela cadeira de braços, em seu gabinete de trabalho, estava Otávio entregue a mil diversas reflexões, das quais apenas por instantes se arrancava para examinar o ponteiro do relógio de parede, que em frente dele se via pendurado.
A cabeça desse mancebo ardia como seu próprio coração. Honrado e nobre, Otávio tinha encontrado no caminho de sua vida uma mulher por extremo formosa para enfeitiçá-lo; amou-a com todo o amor de sua alma; mas, quando foi pedir-lhe a paga de sua ternura, escutou em resposta um não; e esse não teve o poder de desatiná-lo a tal ponto, que se perdeu da bela estrada que seguia, emaranhando-se nos desvios do vício.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.