Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Este célebre porteiro entrou para o serviço do colégio em 1838, trazendo uma casaca bastante usada e uma casaca em muito bom uso. Desde as seis horas da manhã até à noite, sempre estava de casaca, e morreu em 1855 sem ter mandado fazer uma casaca nova!
Entretanto, em l854, foi obrigado a abandonar a sua casaca velha em conseqüência de uma terrível catástrofe.
Estavam-se caiando de novo algumas paredes do colégio. O zeloso porteiro fiscalizava por sua vontade o trabalho, quando em um momento sinistro o caiador estremeceu na escada, e tão desastradamente se houve, que despejou sobre o velho Babo um banho, um dilúvio de água de cal.
Não houve meio de regenerar-se a casaca inundada.
À parte este defeito, que, aliás, a ninguém era nocivo, Manuel Babo Rebelo tinha qualidades que o recomendavam. Gozou sempre da confiança e da estima dos chefes do colégio e dos professores. Era muito querido dos alunos, e não menos dos empregados da casa.
A portaria tem ao lado esquerdo uma escada que nos levará ao andar superior.
Ainda no mesmo lado, uma pequena porta que dá entrada para uma saleta de espera onde se reúnem e descansam os professores, e no fundo uma grande porta de ferro que se abre para o interior do colégio.
Entrando-se pela porta de ferro, encontra-se à mão direita a vigilante sineta que marca as horas de descanso e de trabalho, e logo em seguida entra-se para o corredor da esquerda da igreja, que serve para ponto de espera, onde se ajuntam os alunos externos. Passa-se deste largo corredor para a antiga sacristia, que é hoje a sala das aulas das ciências naturais.
O primeiro professor de ciências naturais no Imperial Colégio de Pedro II foi o Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia. Em 1855, esta matéria passou a ser ensinada em duas cadeiras, a primeira de zoologia e botânica, que continuou a cargo do Dr. Maia, e a segunda de física e química, para a qual foi nomeado o Sr. Dr. Saturnino Soares de Meireles. Atualmente essas cadeiras estão a cargo de outros cavalheiros, porque o Dr. Maia faleceu, e foi substituído no colégio pelo Sr. Dr. José da Silva Lisboa, e o Sr. Dr. Meireles passou a professar a mesma matéria na Academia de Marinha, tomando o seu lugar no colégio o Sr. Dr. José Maria Correia de Sá e Benevides, que aí tomara o grau de bacharel em
Letras.
O Dr. Maia era natural da Bahia, onde nasceu a 8 de agosto de 1808, e onde fez os seus estudos de humanidades. Em 1823, foi com toda a sua família para Portugal, e aí se matriculou na Universidade de Coimbra. Tinha já obtido o grau de bacharel em filosofia natural, quando rebentou a guerra civil entre os constitucionais e os absolutistas. O jovem brasileiro trocou o livro pela espada, e alistando-se entre os acadêmicos voluntários, bateu-se nobremente pela causa da liberdade, e vencido e perseguido, fugiu para escapar aos algozes do terrível usurpador. Enfim, a 2 de setembro de 1833, obteve o diploma de doutor em medicina pela universidade de Paris, e, tornado à pátria, consagrou-se durante vinte cinco anos ao cultivo da medicina, das ciências naturais e das letras. Foi um dos diretores do Museu Nacional e um dos professores da criação do Imperial Colégio de Pedro II. E nos jornais da sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e da Academia Imperial de Medicina, de que foi por muito tempo redator, e na Minerva Brasileira, revista científica e literária, que o teve por fundador e redator-em-chefe, deixou-nos interessantes trabalhos. O Sr. Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia morreu no dia 21 de novembro de 1859.
Suspendo aqui a cansada relação dos professores do colégio, que, aliás, ultimarei no próximo passeio.
E ainda para completar a descrição do pavimento inferior do edifício que estamos visitando, me era necessário levar-vos por um corredor que começa à porta da sala do refeitório, à grande e excelente cozinha do colégio, além da qual se encontram a sala de banhos e quartos de criados, que abrem portas para um segundo pátio. Creio, porém, que podemos dispensar-nos de estender até lá o nosso passeio de hoje, que já se tem prolongado não pouco, convindo portanto dá-lo por acabado aqui.
VII
Não temos, creio eu, a menor necessidade de andar correndo. Vivemos, é certo, no século do vapor e da eletricidade, que vieram dar aos homens admiráveis asas, ainda mais leves que as do beija-flor e mais possantes que as da águia. Mas ninguém se lembra de passear em fios elétricos ou em cavalos de vapor. Ao contrário, é de regra absoluta que quem passeia não tem pressa, e quem tem pressa não passeia.
Estou, portanto, no meu direito, demorando-me ainda no
pavimento térreo do externato do Imperial Colégio de Pedro II, para, ao lançar
a última vista de olhos pelas salas de aulas, recordar os nomes dos professores
que nelas lecionaram e lecionam, e especialmente os daqueles que já não são
deste mundo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.