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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Caminhou assim durante uma hora; cabeça baixa, mãos nas algibeiras do sobretudo e uma secura enorme a lhe escaldar a garganta.

Três vezes tentou fumar e de todas lançou fora o charuto, porque não podia suportar o cheiro do fumo.

Afinal viu um carro de praça, chamou-o, meteu-se dentro dele e mandou tocar para a casa do Coruja.

Todavia, depois mesmo de estar em caminho, hesitava em lá ir. O seu procedimento para com o pobre amigo não podia ser pior e mais ingrato do que fora, ultimamente.

Nada fizera do que lhe prometera; não lhe dera o tal emprego, nem mandara publicar a célebre história do Brasil.

- E havia tanto tempo que já não se viam!... Em que disposição estaria André a respeito dele?... Qual teria sido nessa ausência a sua vida, com uma família às costas e sem meios de ganhar dinheiro?... Quem sabe até se ele tivera estado doente?... Quem sabe se já não teria morrido?...

Davam sete horas quando Teobaldo entrava em casa do Coruja.

O aspecto do corredor, o silêncio que aí reinava, entristeceram-no, pondo-lhe no coração um vago sentimento de remorso.

- Com um bocadinho de esforço, pensou a sua consciência, ter-se-ia restituído a esta pobre gente a primitiva felicidade!...

Foi Inez que veio recebê-lo, e, posto que surpresa com a visita, ela deixava transparecer no semblante as contrariedades de sua vida.

- Como está a senhora sua mãe? perguntou Teobaldo.

- Mal, Sr. conselheiro; há mais de um mês que ela não faz outra coisa senão gemer. Está cada vez pior. Agora tudo lhe dói: são as pernas, os braços, a caixa do peito, as costas, o pescoço e a cabeça! Coitada, chega a fazer dó!

- E o André? Como vai?

- Não sei, não senhor, mas também não anda bom! Ultimamente quase que não dá uma palavra a pessoa alguma; entra da rua e sai de casa, sem tugir nem mugir; às vezes mete-se no quarto às seis da tarde e só dá sinal de si no dia seguinte.

- E como vão os negócios dele? Sabe?

- Sei cá! Se ele não fala com pessoa alguma! Não dá uma palavra!

- Tem trabalhado muito?

- Trabalhado?

- Pergunto se tem escrito.

- É natural; pelo menos leva um tempo infinito metido no quarto.

- Ele está aí?

- Está, sim, senhor; faz favor de entrar.

Teobaldo foi bater à porta do Coruja e ficou gelado defronte do ar frio que este o recebeu.

- Como vais tu? disse.

André sacudiu os ombros e resmungou alguns sons que não lhe passaram da garganta.

- Que diabo tens hoje? Acho-te mudado.

- Nada.

- Não! Tens alguma coisa que te aflige!

- Aborrecimento. Entra. Já tomaste café?

- Ainda não, e quero, porque não me sinto bem.

- Estás doente? Nunca te vi tão amarelo e tão abatido.

- É! Efetivamente não tenho passado bem! Apoquentações... Agora mesmo creio que sinto febre! Não imaginas a vida que levo! Um martírio!

Coruja afastou-se para ir buscar café e o outro então o considerou melhor. O desgraçado estava muito mais acabado e mais feio: caía-lhe agora, todo o cabelo sobre os olhos, que se sumiam debaixo das pálpebras; a boca envergava-se para baixo em uma expressão constante de desgosto e ressentimento; as costas arqueavam-se-lhe como as de um catético, e o peito afundava-se-lhe cavernosamente, tornando-o mais encolhido, mais mesquinho e mais reles.

- Pois, meu amigo, confesso-te, disse Teobaldo, quando ele voltou com as xícaras, que te procurei, porque preciso de ti, como de pão para a boca. Preciso da tua companhia. Aqui onde me vês, sou uma vítima do isolamento e do tédio!

André não respondeu e foi assentar-se a um canto do quarto, sobre um caixão vazio. - Ah! meu bom Coruja, prosseguiu S. Exa., não calculas como ando! Um inferno! Sinto-me farto, inteiramente farto da vida! Sinto-me devastado! Preciso de ti! Quero-te ao meu lado!

Venho buscar-te, e não volto para casa sem te levar comigo!

- Impossível! respondeu o outro seca mente.

- Impossível?! repetiu o ministro, fulminado por esta palavra. Como impossível?! Pois tu não queres vir comigo?

- Não posso.

- E por quê?

- Porque me sinto inutilizado! Já não presto para nada! Já não posso suportar a companhia de ninguém!

- Ora essa! Então tu também estás desgostoso?

- Mais do que podes supor. E peço-te que mudemos de assunto.

Fez-se um grande silêncio entre os dois; cada um fitava o seu ponto, sem ânimo de trocarem um olhar entre si.

Teobaldo perguntou afinal, erguendo-se:

- Não devo então contar contigo?

- Não, não posso ir. Desculpa-me.

- Está bom! Paciência!

E, depois de dar em silêncio uma volta pelo quarto, disse meio hesitante:

- É verdade! E a tua história do Brasil? Terminaste-a?

O Coruja, sem desviar os olhos do lugar em que estavam presos, apontou para um grande montão de papéis rotos, acumulados ao fundo do quarto. - Que é isto? interrogou o conselheiro.

(continua...)

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