Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Segue à risca o que te vou dizer... balbuciou com os olhos imóveis: não olhes para trás de nós, não pares a contemplar no teu caminho a sinistra sombra que fomos... Vê! a luz vem de frente! não te voltes contra a luz, que a noite é doce, mas intrigante e traiçoeira... Em nome de tua mãe, meu filho, não mergulhes de novo na vasa em que acabas de naufragar! Nunca mais leves o teu corpo à boca, sem teres ganho o teu dia; não ponhas teu corpo com o de uma mulher, a quem não possas defender em qualquer terreno; não doures a tua vaidade com o ouro que não ganhaste com as tuas próprias mãos, porque só esse orgulha a quem o gasta. Faze da necessidade, alheia ou própria, a senhora arbitral do teu dinheiro; nunca o sonegues quando ela o reclamar, nem jamais o gastes sem que dele justifique ela a aplicação. E trabalha, e poupa; poupa principalmente nas quantas pequenas, que as grandes por si mesmas estão guardadas; trabalha, seja em que for... o trabalho é o senhor dos homens livres, é o único senhor, a cuja dependência nos tornamos independentes; não suponhas que te humilhas a homens quando te curves diante do trabalho, não tenhas escrúpulo nem vexame de exercer qualquer ocupação subalterna, faze­te soldado, soldado raso, e, quando o dever te reclamar, leva ao ponto mais arriscado e mais glorioso, essa desgraçada vida, que expões sem glória a cada instante nos braços das perdidas e nas távolas dos bêbados. Desconfia de ti próprio, sempre que não fores necessário a alguém; se não prestares para os outros, menos prestarás para ti mesmo... O coração, meu filho, só tem janelas para fora; se quiseres ser feliz, deixa que por elas te entre no íntimo a felicidade alheia... E... e... ama...

Mas a voz perdia­se­lhe na garganta, e os seus olhos, sempre imóveis a pouco se embaciavam.

Vinham­lhe ainda, todavia, aos lábios quase tão imóveis como os olhos, entre palavras de amor, o nome de Violante, o nome do pai, e o de Gabriel, e o de Virgínia, e o de Ana e de Eugênia.

O enteado, de joelhos ao lado do leito, colocou o rosto sobre uma das mãos do agonizante, abafando com elas os seus próprios soluços encharcados de pranto.

Gaspar arquejava.

Pouco depois apareceu o colega que o assistia, e disse em particular a Gabriel que o padrasto não deitaria a noite inteira.

Morreu com efeito às duas da madrugada.

O enterro, no dia seguinte, teve um grande acompanhamento, mas só de pobres; gente de sociedade quase nenhuma compareceu. O Reguinho, entretanto, se mostrou na comitiva, já grisalho e enrugado, sempre, porém, com o mesmo ar de filho­família irresponsável de todo, e sempre a mentir a pretexto de tudo.

A velhinha Benedita, essa não faltou, coitada! Toda curvadinha sobre o seu bordão, a cabecinha a tremer, e o queixo a amanducar em seco, lá foi ela se arrastando até ao cemitério de São João Batista, para rezar bem rezadinho um rosário sobre a sepultura de seu benfeitor, a quem Deus Nosso Senhor tivesse em santa guarda, com as alminhas do Paraíso, pelo muito que ele em vida fizera pelos desgraçados.

L

OS BRILHANTES DO FARANI

Com a prisão do Arrocha, que a justiça acabava de condenar a dois anos de cadeia por crime inafiançável, depois de haver a polícia lhe dado busca na casa de jogo e apreendido o que lá encontrara, viu­se Ambrosina obrigada a voltar de novo a atividade prostibular, mas agora, não já como vagabunda ovelha, e sim como abelha mestra de quatro raparigas, entre as quais Eva Rosa era a de melhor cotação.

E Gabriel, que a despeito dos conselhos "in extremis" do padrasto, fora pouco a pouco, com a última aragem da fortuna, recaindo na primitiva prodigalidade, um belo dia, quando deu por si, depois de uma noite de dissipação em que adormeceu inconscientemente nos braços de Estela, acordou, sem mesmo saber como, nos da sua velha amante, e entre bocejos de apatia se deixou quedar.

Já não tinha, porém o relapso, ao lado de Ambrosina, vislumbres dos arroubos da sua paixão de outrora; amava­a de cara fechada, como traga um bêbado a indispensável dose de aguardente, que lhe exige o vício.

Mas, ainda assim, existiram juntos quase um ano, ao fundo de um policromo hotelzinho de gente de teatro, por cima do recém­criado Casino da rua do Espírito Santo, que se propunha substituir o Alcazar de saudosa memória popular. E durante esse tempo, valha a verdade, nada de notável ocorreu entre eles, a não ser o próprio fato que de novo os desuniu — um doido capricho de Ambrosina por um hércules francês, que se exibia todas as noites no Círculo do Lavradio; homem belo e brutal, com músculos de bronze, a cujo áspero peso gemia a outonada loureira, sentindo esmagarem­se­lhe as dormentes gelatinas em que se lhe havia derretido pelo corpo o palpitante e branco mármore do passado.

A desgraçada o idolatrava, sem a si própria explicar a razão por que. Ele comia­lhe o dinheiro que lhe fariscava nas meias, e batia­lhe com os pés; ela, entre soluços de mulher adorada, dizia­lhe abjeções, cuspia­lhe nas barbas, mas ia, lacrimejante de amor, rebuscá­lo ao fundo das bodegas, para lhe pedir perdão e lhe suplicar que não estivesse a matá­la de ciúmes.

O francês levou­a a esfocinhar nas últimas degradações da crápula rasteira, enquanto teve de partir para Buenos Aires com a companhia de funâmbulos a que pertencia, esgueirou­se à sorrelfa, receando que o seu crampon lhe estorvasse a saída.

Ambrosina reparou então que o miserável, ainda pior do que fez D. Felipe, lhe carregara com os poucos objetos de valor imediato que lhe restavam, e tratou logo de arranjar meios de encostar­se de novo a Gabriel.

Este porém, já de frouxos recursos poderia dispor por esse tempo; achava­se quase completamente esgotado em todos os sentidos. Dera ultimamente para beber e jogar por vício, equilibrando a existência pelas alternativas da roleta e do álcool. Tornava­se desleixado em extremo, e até desbriado.

Ambrosina conseguiu empolgá­lo de novo, e agora mais do que nunca fazia dele o que bem queria, insultava­o constantemente, e lhe não abria a porta, quando o desgraçado fora de horas lhe chegava ébrio e sem dinheiro.

— Vá dormir na estação de polícia, que isto aqui não é lugar de vagabundos! exclamava ela, pondo a cabeça entre as folhas da janela.

E, se insistia, despejava­lhe o balde das águas servidas.

Mas, nem assim, o pobre diabo a deixava de vez.

« Primeiro‹ Anterior...126127128129130Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →