Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
No Colégio de Pedro II, porém, o estudo de cada matéria é moroso, porque não pode deixar de sê-lo, seguindo-se o ensino simultâneo de muitas matérias. E o estudante que deseja aplicar-se ao estudo de uma só matéria erra, porque perde tempo, matriculando-se na aula competente do Imperial Colégio de Pedro II.
Assim, pois, é evidente que a reforma proveniente do art. 3º do regulamento de 24 de outubro de 1857 foi desastrosa para os pobres, e satisfez apenas uma idéia mesquinha de falsa economia.
O governo devia reconsiderar este ponto da sua última reforma. Cumpria-lhe fazê-lo, não só para dar aos meninos pobres o que eles já tinham desde longos anos, e de que se viam de súbito privados, como para desmentir aqueles que propalam que se procura muito de propósito dificultar aos pobres a carreira das letras. Cumpria-lhe, e cumpre-lhe fazê-lo enfim, para que nunca se possa julgar e ainda menos dizer que os pobres órfãos e os meninos pobres perderam muito com a fundação de uma das nossas mais belas instituições: o Imperial Colégio de Pedro II.
Reparo agora que este meu passeio correu todo inteiro nos campos imateriais do raciocínio. Desde o começo até à terminação dele não pus uma só vez os pés em terra.
Foi um longo passeio dado sem sair à rua.
Se faltei aos meus compromissos, passeando assim, dou as mãos à palmatória, com a condição de que não seja o governo quem me aplique os bolos, porque o governo seria muito suspeito nos seus juízos sobre este meu passeio.
VI
Nos precedentes passeios contei-vos tão rapidamente quanto me foi possível a história do Imperial Colégio de Pedro II, importantíssima e patriótica instituição que tem as suas primeiras raízes no século passado, descendendo muito legitimamente dos seminários dos pobres órfãos de S. Pedro e de S. Joaquim, de quem não conservou o nome, mas herdou a fortuna.
Entretanto, essa história ficaria incompleta, se eu não vos levasse agora a visitar os edifícios onde se acham estabelecidos o internato e o externato do Imperial Colégio de Pedro II.
Creio que devemos começar pelo externato, que tem por si o direito de antiguidade.
É bem certo que o tal direito de antiguidade torna-se uma verdadeira burla sempre que o patronato se resolve a tomar a peito fazer saltar um mocinho de bigode preto por cima de um veterano de barbas brancas. Mas o patronato é fidalgo de sangue azul, não se abaixa a passear comigo e, portanto, livre dele, posso ainda prosseguir, andando direito.
Além disso, ao internato não se pode ir calcante pede sem grande fadiga e incômodo. Enquanto, pois, mando preparar os carros que nos devem levar ao Engenho Velho, vamos à Rua Larga de S. Joaquim fazer a nossa visita ao externato.
No fundo da Rua Larga de S. Joaquim se levanta a igreja consagrada ao santo desse nome, e tem pelo seu lado direito a Rua Estreita de S. Joaquim, ligando-se pelo esquerdo ao antigo seminário, depois Imperial Colégio, e hoje externato do Imperial Colégio de Pedro II.
Aqui, acha ainda fundamento para cantar vitória a teoria das compensações.
A Rua Larga de S. Joaquim é tão notável pelo que lhe sobra em largura como pelo que lhe falta em comprimento. E a Estreita, apertada como um beco, sombria e úmida, estende-se bastante, como tantos outros mesquinhos e feios corredores do labirinto chamado cidade velha.
Não disputo à Rua Larga de S. Joaquim o seu qualificativo larga, pois que bem o merece. Mas o nome de S. Joaquim protesto que já o perdeu de direito.
S. Joaquim é desde algum tempo tão denominador ou dono daquela rua como o Sr. D. João VI foi Imperador do Brasil desde 1825, em que declarou que conservava para si esse título, até o ano seguinte, em que morreu, ou como ainda há pouco era Vítor Manuel, Rei de Chipre e de Jerusalém.
S. Joaquim foi sem a menor cerimônia despedido da sua igreja, e provavelmente estimou sê-lo, porque ela já tinha perdido um certo encanto de puro amor que a recomendava.
Em frente da igreja de S. Joaquim mostrava-se no Campo da Aclamação, dantes chamado de Santana, a pequena e humilde igreja desta Santa, que foi, como todos sabem, esposa daquele Santo.
Em um dia de progresso material, veio a estrada de ferro de D. Pedro II, declarou que precisava do lugar em que estava a igreja de Santana, e em 1856 foi a santa arrancada do seu altar e depois levada para uma capela provisória que se levantou sobre os alicerces que tinham sido destinados para uma cadeia na cidade nova.
Os velhos e santos esposos foram assim ainda mais separados do que estavam, e por conseqüência, não devia ser grande o pesar de S. Joaquim, quando aquela mesma estrada de ferro resolveu estender os seus trilhos até à praia, passando exatamente pelo lugar ocupado pela sua igreja.
Não sei se ainda se projeta executar esse plano. Certo é,
porém, que S. Joaquim abandonou a sua igreja, condenada pelo progresso material
do país, e hoje tem a sua veneranda imagem no altar da capela do internato.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.